Redação no Enem: como escrever uma boa introdução


A primeira impressão é a que fica, diz o célebre ditado. Vale para muitos aspectos da nossa vida e, também, para a redação do Enem e demais vestibulares

Por isso, vale iniciar o texto de forma bem adequada, levando em conta dois aspectos. Em primeiro lugar, apresentar o contexto do tema, oferecendo uma visão geral do que será abordado. Além disso, mostrar a sua relevância e atualidade, citando, por exemplo, algum fato recente que colocou o assunto em evidência.

Vejamos um caso prático. Suponha um possível tema de redação sobre a relação entre progresso e equilíbrio ambiental. É um assunto que pode ser abordado numa das provas deste ano, não só em função do desastre ambiental de Mariana, ocorrido em novembro de 2015, como também por diversas outras discussões relacionadas aos impactos do homem sobre o meio ambiente.

Uma possível introdução para esse tema é a seguinte:

“Os avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas transformaram significativamente a vida humana, gerando riquezas e, em muitos casos, mais qualidade de vida. O progresso traz, entretanto, uma nova questão, que preocupa cada vez mais o Brasil e o mundo: é possível garantir o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, preservar o equilíbrio ambiental do planeta?”

Veja que o parágrafo ofereceu uma visão genérica sobre a questão a ser discutida, mostrando a sua atualidade e importância. É um parágrafo que abre caminho para argumentações a serem apresentadas na parte seguinte, o desenvolvimento.

Por fim, note que foram utilizadas duas estratégias para conquistar a atenção do leitor. O parágrafo é bem objetivo, indo direto ao ponto. E busca aguçar a curiosidade, lançando uma questão polêmica, a ser discutida em sequência. Tudo indica que o leitor ficará interessado em acompanhar o texto até o final.

Vejo o vídeo por esse link : http://g1.globo.com/educacao/blog/andrea-ramal/post/redacao-no-enem-como-escrever-uma-boa-introducao.html

Debater estupro e gênero na universidade é “vacina”, diz antropóloga da USP


Marcia Thereza CoutoMarcia Thereza Couto

Deixar a temática de gênero de fora dos currículos do ensino superior é uma espécie de terreno fértil para um mercado de trabalho com profissionais que perpetuem desigualdades e estereótipos.

A opinião é da antropóloga Marcia Thereza Couto, 45, pernambucana que é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Juntamente com outras pesquisadoras e professoras de diferentes áreas de atuação, Marcia está desde abril do ano passado à frente da Rede Não Cala USP, que foi criada para dar suporte às vítimas de violência sexual.

À época da formação do grupo, o foco eram as alunas de medicina que levaram a público casos de estupro cometidos por seus próprios colegas de curso em festas de estudantes.

O trabalho cresceu, e, desde então, a equipe acompanha 15 mulheres do ambiente acadêmico da USP que sofreram algum tipo de violência sexual ou de gênero – não só alunas, como professoras e funcionárias.

A antropóloga conversou com a reportagem do UOL sobre como trabalhar a cultura do estupro no ambiente universitário – o pano de fundo foi o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro e a repercussão social que o crime ganhou.

Para Marcia, que atuou em movimentos feministas de décadas passadas e foi à avenida Paulista no último dia 1º em apoio à jovem carioca, “algo está algo novo acontecendo pelas mãos das meninas jovens”.

 Leia, a seguir, a entrevista com a antropóloga.

UOL – De que maneira a universidade pode acabar com a cultura do estupro?

Marcia Thereza Couto – A escola tem não só o dever, mas o papel de inserir gênero no seu conteúdo curricular – desde o ensino fundamental e infantil até o ensino universitário. Na Faculdade de Medicina, costumamos dizer que cursos como medicina, direito e engenharia, por exemplo, não são amigáveis à perspectiva de gênero, não são facilitadores da penetração desse conteúdo no currículo escolar.

E no caso da formação médica, isso acarreta uma visão pouco crítica dos alunos e das alunas sobre as desigualdades de gênero no mercado de trabalho para eles próprios. Acarreta um impacto negativo sobre estereótipos de gênero que esses alunos e profissionais constroem diante dos seus futuros pacientes e usuários da saúde, ao criar estereótipos sobre a mulher, o gay, a lésbica. E faz com que eles não pensem também em como o seu próprio currículo o faz perpetuar esses estereótipos na sociedade.

UOL – Recentemente, alunos e alunas de arquitetura do Mackenzie denunciaram um professor que teria feito piada com vítimas de estupro do hoje ex-médico Roger Abdelmassih. A partir disso, o que é mais difícil: inserir questões de gênero nos currículos ou na própria formação do professor?

Marcia – É muito difícil em ambas as situações. Vivemos um sistema educacional em que, embora as mulheres tenham alcançado um nível de inserção muito grande últimos anos, grande parte dos professores universitários, sobretudo nas escolas mais tradicionais – como direito, medicina e engenharia –, são homens.

Uma segunda questão é que, mesmo existindo mulheres no quadro de professores dos diferentes cursos da universidade, alguns com mais, outros com menos, a academia sempre foi muito refratária à perspectiva de gênero, se compararmos a outras perspectivas. Gênero só entra como debate, saindo do movimento social, a partir dos anos 80 nos Estados Unidos – é muito recorrente que qualquer tópico ou tema de gênero que a gente queira inserir nos currículos seja visto como algo menor na formação dos alunos. Porque grande parte desses professores são homens e estão nos cargos de mais poder como chefia de departamento e órgãos colegiados; além do que, a própria perspectiva de gênero é muito recente.

UOL – No que o trabalho da Rede Não Cala consiste e o que ele tem observado sobre a violência contra a mulher dentro da universidade?

Marcia – A Rede junta professoras e pesquisadoras da USP e surgiu ano passado, em abril, diante da repercussão dos diversos casos de violência contra a mulher, sobretudo a sexual, na universidade. Muitas de nós, professoras em diferentes departamentos, éramos procuradas por alunas e começamos a debater que essas alunas passam por nós – e nós vivemos a universidade ao longo décadas, já que somos funcionárias de carreira.

Nossa rede é só de professoras e pesquisadoras, mas temos tido uma relação bastante estreita também com coletivos feministas e de gênero de dentro da universidade que têm campanhas, por exemplo, contra o machismo e a exploração sexual. Nossa perspectiva é inovadora no sentido de cobrar da universidade uma ação muito mais apropriada sobre esse problema que a instituição enfrenta há décadas, que são a cultura do machismo e a banalização da violência e do assédio enfrentadas pelas mulheres.

UOL – Há relatos segundo os quais alunas de medicina que denunciaram casos de estupro ano passado estariam sendo hostilizadas…

Marcia – Lidamos com isso, é fato – mas elas não são hostilizadas só pelos colegas, como por funcionários e professores.

Nós as apoiamos e buscamos as reparações e punições no sentido de mostrar que machismo e violência ocorrem na universidade como em toda a sociedade, da qual a instituição não está apartada. (…) Existem muitas meninas que vivenciaram violência sexual não só na USP, mas em inúmeras universidades, que têm histórico de abandono de seus cursos de formação. Não podemos permitir isso.

UOL – Desde 2015, entre as vítimas que a Rede acompanha, qual a principal sequela emocional que fica?

Marcia – É ter que conviver com o agressor dentro sala de aula, ao lado, no mesmo ambiente, e ser, muitas vezes, desacreditada pelos outros colegas sobre se, de fato, ela tivesse sido a culpada.

UOL – A senhora esteve na manifestação da Paulista no último dia 1º contra a cultura do estupro. O que sentiu ao ver a reação de milhares de mulheres?

Marcia – Foi um sentimento de que as mulheres não querem se calar e estão se unindo. Vi ali tantas mulheres, algumas conhecidas e muitas desconhecidas, mães com crianças, alunas, secundaristas, colegas professoras, mulheres saindo de seus turnos de trabalho…

E todas juntas por um ideal de reparação histórica contra a humilhação e a violência que elas vêm sofrendo. E além do mais, o caso exemplar que as levou às ruas é que não há nenhuma desculpa para não reconhecer o estupro e não dar visibilidade ao que a vítima está falando. Não há desculpa: foi estupro, e isso é crime.

Os movimentos feministas têm ganhado as ruas porque perceberam que esse é um bom momento não só para barrar retrocessos nos direitos das mulheres, mas para marcar novos posicionamentos de que não se esqueceram lutas mais antigas delas pela liberdade. Para mim, aos 45 anos, é um rememorar de décadas passadas ver algo novo acontecendo pelas mãos das meninas jovens. Achei muito bonito e diverso.

Sabe qual é a relação entre cultura do estupro, questão de gênero e escola?


Com o caso da menina que sofreu estupro coletivo no Rio Janeiro (RJ) este mês, a expressão “cultura do estupro” ganhou força e passou a fazer parte de debates dentro e fora das redes sociais.

O termo diz respeito a um ambiente hostil à mulher, que a impede de usufruir plenamente da liberdade sobre o próprio corpo e o seu comportamento. E a escola tem papel fundamental no combate à cultura do estupro.

Valéria Scarance Fernandes, do Núcleo de Gênero do Ministério Público do Estado de São Paulo

Segundo duas especialistas em direitos das mulheres, é necessário que o ambiente escolar seja um espaço seguro, saudável e de livre discussão para impedir a reprodução de preconceitos e estereótipos.

“Não vamos dizer a elas [às meninas] que têm que costurar ou mexer com panelas, e a eles [aos meninos], que têm jogar futebol: elas precisam vislumbrar que podem ser engenheiras marítimas ou de aviação, se quiserem”, exemplifica Silvia Pimentel, jurista, professora da PUC-SP e, atualmente, no terceiro mandato no Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (em inglês, CEDAW), da ONU (Organização das Nações Unidas).

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

“A educação é a chave da transformação, pois a raiz da violência está em concepções naturalizadas de que a mulher pertence e está disponível ao homem – e se ela se afasta do padrão social tradicional, provoca eventual violência [contra ela]”, explica a coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público do Estado de São Paulo, a promotora Valéria Scarance Fernandes.

Fernandes lembra que a Lei Maria da Penha, que completa uma década em agosto de 2016, prevê, como destaque nos currículos escolares, o conteúdo referente à violência doméstica e familiar contra a mulher.

“Falta ainda às escolas a sensibilização para o tema da violência contra a mulher, de um modo amplo, e não só sobre a cultura do estupro – se quisermos construir um mundo sem violência, precisamos entender que os profissionais de educação devem ter um olhar diferenciado”, diz Fernandes.

A temática de gênero não pode ficar de fora– conteúdo que foi excluído dos planos estaduais de educação de, pelo menos, oito Estados. Um erro, na opinião de Pimentel.

“Temos que retomar criticamente o debate sobre a retirada de gênero nos planos de educação e temos que vencer essa parada”, defende Pimentel. “Aí está o fulcro do trabalho a ser feito se quisermos combater a subcultura do estupro, que, por sua vez, está inserida em uma cultura patriarcal e machista que representa o corpo da mulher como algo disponível aos homens.”

Abordagem em escolas sobre estupro

Sobre a violência sexual, Pimentel acha que o esforço deve ser feito já na formação dos professores, uma vez que o assunto é “delicado e que exige cuidado de abordagem”.

“A criança precisa saber que não pode ser tocada pelos outros, mas disso depende, também, treinar o olhar do profissional que vai lidar com ela”, diz a jurista, adepta do bordão “revolução pela educação”. “Uma revolução que nos traga mais cidadania – e que não tenha a cegueira de gênero”, explica.

Na reeducação defendida pela jurista, ela apontou ainda outro agente social que considera fundamental: “precisa ser um trabalho contínuo, profundo e lento também dos meios de comunicação, que, por sua vez, têm muita força também para ajudar a sociedade civil a cobrar do Estado esse tipo de política [de combate à violência]”.

Estatísticas sobre estupro

A nota técnica publicada em 2014 pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) revelou que o Brasil tem em média 527 mil casos de estupro registrados por ano – mas só 10% são efetivamente noticiados à polícia. Entre as vítimas, 89% são mulheres, 70% têm até 17 anos, e, em 99,6% dos casos, os agressores são homens – dois terços deles, pais e padrastos.

O rito da “Chegada”


Por Cristiano Bodart
Em férias, na cidade de Ouro Preto- MG, não pude deixar observar um ritual bastante rico de significados*; trata-se de uma espécie de rito de conquista. Vou chamá-lo de “chegada”, pois assim chamam tal ritual o qual diz respeito aos jovens daquela cidade.
Dois adendos são necessários para a continuação desse relato: i) os ritos ali observados se repetem em outros grupos, embora teria sido a primeira vez que esteve tão próximo aos meus olhos e passível de serem observados por mim por um longo período; ii) não tenho a pretensão de realizar um relato antropológico exaustivo, apenas compartilhar algumas observações  e impressões iniciais em torno do rito.
Em companhia de minha esposa, historiadora e amante das riquezas materiais que aquela cidade proporciona aos olhos, estávamos na noite de Ouro Preto em um restaurante, precisamente ao lado de uma janela, a qual tinha vista para uma rua próxima a Praça Tiradentes, onde ocorria o “Festival de Samba de Ouro Preto”. Nessa rua havia muitos jovens bebendo, fumando, “papeando” e, principalmente, dando umas “chagadas”. A riqueza antropológica me chamou atenção de imediato e, a partir daí, fiz o convite à minha esposa para observarmos tal riqueza simbólica, cujo complemento se deu a partir de uma conversa com um dos grupos de jovens que observávamos no local.
A “chegada” parece ser um rito de conquista com poucas variações ritualísticas, embora bastante complexa e merecendo um estudo mais aprofundado e atento.
Os envolvidos no rito
Em sua maioria, os participantes parecem possuir de 11 a 20 anos de idade e pertencente a classe social menos favorecida, embora a maioria se esforce para vestir roupas e bonés de “marca”. Em conversa com um grupo, este nos revelou que são da cidade e que a maior parte das pessoas que eles buscam se relacionar são da região.
Tanto os rapazes, quanto as garotas, andam em grupos de 3 a 6 pessoas.
A divisão dos papéis sexuais
A divisão dos papéis sociais é bem marcada e clara nesse rito. Os garotos ficam, parados em pontos estratégicos onde esperam a passagem das meninas.  Enquanto cabe a eles ficaram parados esperando as meninas para “chegarem”. A elas cabe a tarefa de subir e descer a rua para serem abordadas pelos meninos.
O preparo
O ritual é bastante rico em detalhes. Os rapazes estando em locais estratégicos na rua mais afastada e ainda movimentada observam as garotas ainda a alguns metros, escolhendo uma delas pela aparência física. A escolhida será a que deverá ser conquistada.
A rua escolhida é aquela onde o diálogo é possível, ainda que tendo que conversar ao pé do ouvido e quase aos gritos por conta do som auto da festa, mas que não esteja com aglomeração demasiada, a fim de permitir a observação e o deslocamento das garotas.
A chegada propriamente dita
Escolhida a garota, vai-se de encontro a ela interrompendo seu trajeto se colocando à sua frente. Nesse momento, pergunta se ela quer “ficar com ele”. Nessa hora, cabe a garota escusar-se por alguns instantes enquanto faz sua avaliação do rapaz, levando em conta a “azaração” (cantada) do pretendente, a roupa e sua aparência física. Se o rapaz for de seu agrado ela cede ao pedido e deixa-se beijar e recebendo um abraço apertado, tendo as mãos percorrendo parte do corpo da garota(o que eles chamam de amasso), marcado por um demorado beijo de língua.
As garotas andam igualmente em grupos e em passos lentos, facilitando a aproximação dos rapazes.
A “chegada” pode ser realizada por mais de um rapaz ao mesmo tempo, mas nunca direcionada à mesma garota. Há o respeito pela escolha prévia, segundos antes de “chegar” (ato de abordar a mulher, buscando conseguir uma ou mais beijos na boca).
Ao “chegar na garota”, o rapaz tece elogios a garota. Diz que a estava observando e cria uma situação oportuna ao beijo. Frente à recusa inicial, ele continua a insistir. Ela continua andando enquanto ele insiste, algumas vezes obstruindo a passagem da garota ou segurando-a pelo braço (minha esposa julgou esse gesto bastante agressivo, embora o grupo tenha nos dito que as garotas nem sempre pensam dessa forma). As demais garotas do grupo continuam caminhando no mesmo ritmo, indo à frente. Essas aguardam metros à frente a fim de perguntar como foi e se beijou o rapaz. Ela aceitando ou não beija-lo, conta a façanha às suas colegas, em vantagem às demais por ter sido a escolhida dentre o grupo. Após isso, caminha-se até o fim da rua e retorna para uma nova rodada do rito.
Em alguns casos onde a garota se recusa beijar o rapaz, esta é xingada por ele.
Os desfechos possíveis:
Podem ocorrer dois desfecho: i) o beijo encerrar o ritual ou; ii) o ritual se prorrogar por mais alguns minutos ou horas.
O certo é que findado o ritual, ambos fingem que nunca se viram ou se encontraram.
Há vínculo amoroso?
O ritual é um ato sem compromisso amoroso ou de fidelidade. Trata-se de um ato despretensioso em relação a matrimônio ou relacionamento fixo. O rito caracteriza-se pelo seu aspecto momentâneo e que se repete muitas vezes na mesma noite e entre indivíduos diferentes.
status e consumo
A bebida é um elemento de status social. Notei que alguns jovens carregavam nas mãos garrafas de bebidas relativamente caras, como se tivessem carregando um troféu ou algo que lhe desse destaque dentre os demais. Outros exibiam em punho uma lata de cerveja. Notei que alguns jovens permanecerem com latas de cervejas vazias por horas, simulando estarem cheias. Houve um momento que um dos rapazes pegou uma lata no chão para simular que estava bebendo como os demais.
As roupas e bonés de “marcas” (produtor de marcas conhecidas entre os jovens e mais caras que as demais) parecem ter um papel igualmente importante em relação ao status.
Dentre as meninas, o status social em relação às amigas é atribuído a partir de dois indicadores básicos: i) quantidade de garotos que chegaram nela durante a noite; ii) beleza dos garotos que permitiu beijá-la. Garotas mais assediadas por rapazes bonitos e bem arrumados teriam mais prestígios entre as colegas.
A conquista
A conquista é o elementos de status social mais importante do ritual da chegada, embora outras partes dos ritual também o seja. O garoto que mais realiza o ritual (de chegar nas garotas, como dizem) detém entre os amigos statusde “corajoso”, entretanto o que consegue beijar mais garotas o status de “pegador” (espécie de conquistador de sucesso).
Os tímidos e os desinibidos
Claro que existe rapazes mais tímidos que outros. Nesse caso, cabe ao desinibido a tarefa de “chegar” para o colega. Ele se aproxima de um grupo de meninas e pergunta se alguma delas estaria interessada em “ficar” com o colega tímido, fazendo, assim, o papel de intermediador.
O ciclo
O ritual se repete durante toda a noite. As garotas sobem e descem a rua passando próxima aos grupos de rapazes a fim de que estes cheguem nelas. As garotas dotadas de melhor aparência na avaliação dos rapazes são rapidamente abordadas e passam pelo ritual por diversas vezes na noite, tendo essa condições de ser mais seleta em suas escolhas.
Breves apontamentos interpretativos
O rito da “Chegada” nos elucida três aspectos marcantes em nossa sociedade: o machismo, a desejo pelo poder e o papel do consumo na definição do status social.
Rituais como esse nos demonstram a faceta de nossa sociedade machista, onde a mulher é tida como objeto a ser conquistado, de ser “tomada” como troféu. Embora as mulheres tenham conquistado poder na sociedade brasileira, o rito da Chegada evidencia a permanência de sua submissão ainda presente na atualidade. No rito, cabe a mulher ser agente passiva. Ser possuía, ser “pegada” (como se referem os rapazes ao conquistá-las). Embora a mulher tenha condições de recusar o beijo, a insistência, às vezes agressiva  é marca de nossa realidade. Igualmente notamos o machismo quando a garota se recusa o beijo, sendo esta algumas vezes xingada pelo rapaz. Nota-se que a liberdade da mulher em escolher é ainda, no rito, algo frágil.
O sentimento de dominação é bastante presente no rito; ora observável na busca por conquistar a mulher, ora na ostentação de roupas e bonés de marcas mais caras. A bebida, como inculca nossa mídia, é tida como símbolo de masculinidade e poder entre os rapazes.
A prática de obstruir a trajetória das garotas, assim como segurá-las pelo braço deixa-nos evidente que o macho se coloca em situação de dominador, enquanto que caberia à fêmea ser dominada, ainda que podendo se escusar do pretendente.
As roupas e bonés de marcas caras se manifestam como o desejo de incluir-se no grupo e conquistar status social perante ele. O consumo é igualmente um potencializador do respeito do outro, o que eles chamam de “moral”. Ter moral com os amigos é destacar-se e isso é possível via consumo e dominação, não muito diferente do restante dos grupos sociais ocidentais.
O rito da “Chegada”, a princípio nos trás estranheza pelas características que apresentam, mas sob uma perspectiva que busque familiaridades notaremos que sua essência está presente em grande parte de nossos rituais ocidentalizados.
A noite já dava lugar a madrugada e estávamos ainda ali, conversando com um dos grupos observados. Esses nos apresentavam as conquistas como se fossem troféus.

*Tal ritual merece um estudo mais atento e exaustivo. Nesse relato apresentei apenas as impressões que me foram possíveis de realizar a partir de uma observação de algumas horas e uma conversa com poucos indivíduos. Fica aí a sugestão de pesquisa.

Fonte: Café com Sociologia

Sociologia no Enem: o que você precisa saber?


 Por Eduardo Calbucci

blog UOL 1

Desde a mudança do formato do Enem, em 2009, as questões de Sociologia e Filosofia vêm ganhando cada vez mais espaço na prova. Atualmente, um terço do exame de Ciências Humanas envolve essas duas disciplinas (os dois terços restantes englobam História e Geografia). Essa tendência de valorização da Sociologia e da Filosofia parece-nos um caminho sem volta, pois, além do Enem, muitos outros vestibulares estão indo nessa mesma direção. Por isso, para ingressar numa boa instituição de ensino superior, é necessário ser capaz de fazer reflexões sociológicas e filosóficas.

Em relação à Sociologia, existem três conselhos básicos para o estudante que está interessado no Enem.

O primeiro é saber que muitas questões envolvem a competência de leitura de textos básicos do pensamento sociológico, no Brasil e no mundo. Assim, é fundamental demonstrar familiaridade com esse tipo de discurso, tanto em relação aos pensadores clássicos, como Marx, Weber e Durkheim, quanto a intelectuais mais modernos. Às vezes, a questão não pressupõe conhecimento prévio da obra desses sociólogos, mas, sem experiência de leitura desse tipo de texto, é muito difícil acertar a questão. Portanto, ler textos sociológicos consagrados é uma ótima forma de se preparar para a prova.

O segundo conselho é mais específico. Atualmente, das áreas que integram o que chamamos de Ciências Sociais, a que mais tem sido lembrada pelo Enem é a Antropologia. Daí que o conceito de cultura tenha uma grande relevância no exame. Discussões envolvendo diversidade cultural, apropriação cultural, choque cultural, aculturação e etnocentrismo são extremamente comuns. Por isso, o aluno deve ir para a prova dominando essas noções teóricas e sabendo aplicá-las à realidade brasileira e mundial.

O terceiro conselho vale para todas as disciplinas praticamente. Olhar as provas anteriores e estudar por elas costuma render bons frutos, pois os exames têm a tendência a seguir um padrão em relação aos assuntos mais cobrados, ao tipo de questionamento e ao grau de dificuldade das questões. Então, mergulhe nas provas de 2009 até 2015, que você não há de se surpreender com o exame de 2016.

https://i1.wp.com/imguol.com/blogs/150/files/2016/07/Bucci_2.jpg