Sociologia da infância


Sociologia da infância

A abertura no campo das idéias sociológicas reservado às crianças possui uma atenção específica e discute o tema enquanto categoria e fenômeno social

por FABIANA DE OLIVEIRA*

*é mestre e doutoranda em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Possui estágio de Doutoramento na Universidade do Minho (Portugal).

SHUTTERSTOCK

Nos últimos dez ou vinte anos, a atenção da opinião pública em direção às crianças e aos jovens tem crescido consideravelmente como nos exemplifica Sgritta (1997): com o interesse da comunidade científica, os comitês e equipes de observação estabelecidos no nível nacional e internacional, os institutos oficiais de estatística têm finalmente recolhido dados sobre a condição da infância.

Neste sentido, podemos incluir uma abertura no campo das idéias sociológicas que, até então, não tinham reservado às crianças uma atenção específica, pois sempre eram estudadas como um fenômeno interligado à escola e à família e atrelada à discussão sobre a socialização da criança como uma forma de inculcação dos valores da sociedade adulta.

Essa abertura no campo sociológico a partir de um outro conceito de socialização possibilitou o surgimento da Sociologia da Infância e uma nova perspectiva de compreensão da criança como um ator social e a infância como uma categoria geracional. Segundo Sirota (2001:04) “a redescoberta da Sociologia interacionista, a dependência da fenomenologia, as abordagens construcionistas vão fornecer os paradigmas teóricos dessa nova construção. Essa releitura crítica do conceito de socialização e de suas definições funcionalistas leva a considerar a criança como ator”.

A PARTIR DOS ANOS 80, os trabalhos sociológicos sobre a infância se multiplicaram em várias publicações em revistas especializadas como a Sociological Studies of Children entre outras que não eram especializadas em assuntos da infância, e ainda, as obras que começaram a aparecer, como foi caso das publicações de Willian Corsaro, Allison James, Alan Prout e Jens Qvortrup.

Os sociólogos da infância se reuniram pela primeira vez em 1990, no Congresso Mundial de Sociologia. A Sociologia da Infância é um dos mais recentes comitês de pesquisa da Associação Internacional de Sociologia (ISA) e também se constitui como um dos grupos de trabalho criados na Associação Internacional de Sociólogos de Língua Francesa (AISLF).

Vertente recusa uma concepção uniforme da infância, por isso podemos falar em infâncias no plural

É um campo recente, existe há pouco mais de uma década, mas que vem nos apresentar questionamentos muito relevantes sobre o modo que até então as crianças eram consideradas no campo da Psicologia, da Medicina, da Pedagogia e até da própria Sociologia.

Esta vertente recusa uma concepção uniforme da infância, pois mesmo considerando os fatores de homogeneidade entre as crianças como uma categoria do tipo geracional própria, os fatores de heterogeneidade também devem ser considerados como a classe social, o gênero, a etnia, a religião, a estética etc, pois os diferentes espaços estruturais as diferenciam, por isso podemos falar em infâncias no plural.

Qvortrup não considera o uso do conceito de infância no plural, pois para ele, é uma estrutura constante, universal e característica de todas as sociedades, pois as crianças vivem dentro desta área definida em termos de tempo, espaço, economia e outros critérios relevantes, mas que possui um número de características em comum que devem ser consideradas e generalizadas (Qvortrup, 1994 apud James e James, 2004:20).

Para James e James (2004) o que tem sido central para o desenvolvimento dos estudos da infância e também para a política cultural da infância é o reconhecimento de que ela é ao mesmo tempo comum para todas as crianças enquanto um espaço estrutural permanente, ocupado por elas como uma coletividade, mas também é fragmentada pela diversidade de vida das crianças (veja quadro Pontos importantes).

Pontos importantes

Apesar das diferenças entre os sociólogos da infância, Sirota (2001:13) nos apresenta alguns pontos que podem ser considerados semelhantes entre eles na consideração da criança e da infância:

A criança e a infância são uma construção social; a infância é entendida não como algo universal, mas como um componente tanto estrutural quanto cultural;

Considera a variabilidade dos modos de construção da infância, reintroduzindo a infância como um objeto ordinário de análise sociológica;

As crianças devem ser consideradas como atores em sentido pleno e não simplesmente como seres em devir.
As crianças são ao mesmo tempo produto e atores dos processos sociais;

A infância é uma variável de análise sociológica que se articula à diversidade de vida das crianças considerando a classe social, gênero e pertencimento étnico.

Alguns pesquisadores que não concordam com a separação entre a consideração das crianças como atores e as estruturas sociais “pensam que é preciso considerar os dados concernentes à ação e à experiência das crianças, situando-as nas obrigações da organização social. Os trabalhos dos teóricos modernos da Sociologia, de Giddens entre outros, servem freqüentemente como referência” (Montandon, 2001:21).

Os sociólogos da infância de um modo geral concebem o conceito de socialização a partir de um entendimento diferente do utilizado por Durkheim, pois esta socialização estaria atrelada a uma visão vertical a partir da qual a criança absorve o mundo adulto com suas regras e valores por meio da ação de uma geração sobre a outra.

A infância foi e continua sendo concebida a partir de uma perspectiva psicológica

Segundo Plaisance (2004:225) “a própria história da Sociologia deve muito à concepção durkheimiana da socialização, uma vez que esta foi freqüentemente reduzida a uma interiorização de normas e valores como efeitos de uma coerção social”, no entanto, “as concepções contemporâneas da socialização insistem, pelo contrário, na construção do ser social por meio de múltiplas negociações com seus pares e, ao mesmo tempo, na construção da identidade do sujeito”.

Desta forma, propõe-se um outro modelo baseado numa concepção interacionista que implica considerar a criança “como sujeito social, que participa de sua própria socialização, assim como da reprodução e da transformação da sociedade” (Mollo-Bouvier, 2005:393).

ESSA NOVA PERSPECTIVA de compreender o estudo da criança levanos a “reconhecer a infância como categoria geracional própria, as crianças a partir de suas alteridade como os múltiplos- outros, perante os adultos e ainda o balanço crítico das perspectivas teóricas que construíram o objeto infância como a projeção do adulto em miniatura ou como um adulto imperfeito, em devir, constitui-se uma esforço teórico desconstrucionista da sociologia da infância” (Sarmento, 2005:373).

Sarmento (2005:363) compreende a Sociologia da infância a partir de duas categorias sociológicas que se referem aos conceitos de geração e alteridade por meio dos quais “propõe- se a constituir a infância como objeto sociológico, resgatando-a das perspectivas biologistas (…) que tendem a interpretar as crianças como indivíduos que se desenvolvem independentemente da construção social das suas condições de existência e das representações e imagens historicamente construídas sobre e para eles”.

A infância foi e ainda continua sendo concebida tradicionalmente a partir da perspectiva psicológica, centrada na noção de ‘desenvolvimento’, que considera este período um fenômeno universal e biológico que constrange as competências e habilidades das crianças e desconsidera seu contexto cultural em detrimento do seu desenvolvimento físico e emocional (James e James, 2004; Prout, 2005).

Esse entendimento por meio das perspectivas biologistas produzem necessidades específicas e, conseqüentemente, universais em ‘prol do ‘melhor interesse da criança’, mas são construídas socialmente e que variará entre as culturas, no entanto, é um aspecto desconsiderado por tal perspectiva que contribui também para o que Sarmento (2005) denomina de ‘negatividade constituinte da infância’, pois as crianças têm sido lingüística e juridicamente consideradas pelo prefixo da negação e pelas interdições sociais que se justifica pela idéia de menoridade (Woodhead, 1996 apud James e James, 2004:18).

FOTOS: SHUTTERSTOCK
Mesmo considerando a homogeneidade entre as crianças como uma categoria do tipo geracional própria, a heterogeneidade também devem ser considerada(classe social, gênero, etnia, religião, estética etc), pois os diferentes espaços estruturais as diferenciam, permitindo falar em infâncias no plural

PARA JAMES E JAMES (2004) isto acarreta um constrangimento à vida das crianças que se configura por meio da formatação e controle de sua experiência social da infância pelos adultos, de forma específica por meio das leis (do Direito).

As crianças produzem culturas infantis, no entanto, segundo Quinteiro (2005:21) “pouco se conhece sobre as culturas infantis porque pouco se ouve e pouco se pergunta às crianças (…) há ainda resistência em aceitar o testemunho infantil como fonte de pesquisa confiável e respeitável”.

Por isso, de acordo com Delgado e Müller (2005:351) “o campo da Sociologia da infância tem ocupado um espaço significativo no cenário internacional, ao propor o importante desafio teórico- metodológico de considerar as crianças como atores sociais plenos”. Neste sentido, de o trabalho foi passando de uma pesquisa sobre crianças para uma pesquisa com as crianças.

Os sociólogos da infância de um modo geral concebem o conceito de socialização a partir de um entendimento diferente do utilizado por Durkheim, pois esta socialização estaria atrelada a uma visão vertical, a partir da qual a criança absorve o mundo adulto com suas regras e valores por meio da ação de uma geração sobre a outra

Fazer pesquisa com as crianças é tirá-las do seu antigo – e desde sempre – papel de seres passivos, de objetos da pesquisa, pois elas podem passar a contribuir para a criação dos questionários, a sugerir a melhor forma que uma questão pode ser formulada e compreendida pelos pares, podem também ajudar na coleta dos dados, bem como, de sua análise e divulgação. Para Alderson (2005:420) “as crianças são pesquisadoras e sempre co-produtoras de dados”. Elas devem sempre ser consultadas sobre a sua participação na pesquisa, se querem ou não participar, considerando a questão ética e a velha relação de poder entre adultos e crianças, pois devem ter seus direitos preservados e serem vistas como “atores na construção social e na determinação de suas vidas”.

A pesquisa etnográfica é muito utilizada pelos sociólogos da infância, mas há também as abordagens macrossociais e quantitativas. A etnografia requer dos pesquisadores uma expropriação de seu ‘ser adulto’ para se integrar na identidade de uma outra cultura, ou seja, tornar-se parecido, com o sujeito pesquisado, assim, Corsaro (2005:446) faz a seguinte colocação “estou convicto de que as crianças têm suas próprias culturas e sempre quis participar delas e documentá-las. Para tanto, precisava entrar na vida cotidiana das crianças, ser uma delas tanto quanto podia”.

O ADULTO PRECISA se tornar um ‘adulto atípico’¹ para ser aceito no grupo de crianças e tentar compreender seus mundos, suas culturas, sua forma de compreensão do mundo, ou seja, sair de uma lógica adulta para entrar na lógica da criança. Essa mudança de ênfase na questão metodológica, com esse movimento de ‘dar’ voz às crianças ‘ creditar suas falas, como válidas, pode “resgatá-las do silêncio e da exclusão, e do fato de serem representadas, implicitamente, como objetos passivos, ao mesmo tempo em que o respeito por seu consentimento informado e voluntário ajuda a protegê-la de pesquisas encobertas, invasivas, exploradoras o abusivas” (Alderson, 2005:423).

Delgado e Müller (2005:354) levantam as principais dificuldades que precisam ser ultrapassadas e que estão relacionadas nas pesquisas com crianças: fugir da lógica adultocêntrica para buscar os significados que as crianças atribuem ao mundo e não a perspectiva do adulto; a entrada no campo, considerando que as crianças são sujeitos ativos, portanto, não objeto de pesquisa, mas sujeitos desse processo, são investigadoras também; e, por último a questão da ética na pesquisa com as crianças (veja quadro Metodologia de pesquisa ).

IMAGENS: SHUTTERSTOCK
O adulto precisa se tornar um “adulto atípico” para ser aceito no grupo de crianças e tentar compreender seus mundos, suas culturas, sua forma de compreensão do mundo, ou seja, sair de uma lógica adulta para entrar na lógica da criança

Podemos situar a pesquisa de Florestan Fernandes como o pioneiro nesses estudos sobre a cultura da infância

A Sociologia da Infância no Brasil é um campo que está sendo delineado aos poucos com algumas pesquisas e universidades de referência na discussão sobre o tema. Podemos situar a pesquisa de Florestan Fernandes como o pioneiro nesses estudos sobre a cultura da infância com o seu trabalho denominado As trocinhas do Bom Retiro, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para que as nossas pesquisas realmente reconheçam a criança como este ator social e co-participante da investigação e não somente objeto da pesquisa.

REFERÊNCIAS
ALDERSON, Priscilla. Crianças como pesquisadoras: os efeitos fos direitos de participação na metodologi da pesquisa. In:Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 26, n. 91, p.419- 442, Maio/Ago. 2005. 

CORSARO. Willian. Entrada no campo, aceitação e natureza da participação nos estudos etnográficos co crianças pequenas. In: Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 26, n. 91, p.443-464, Maio/Ago. 2005.

DELGADO, Ana Cristina Coll & MÜLLER, Fernanda. Sociologia da Infância: pesquisa com crianças. In: Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 26, n. 91, p.351-360, Maio/Ago. 2005.

FERNANDES, Florestan. As “trocinhas” do Bom Retiro” in: Folclore e mudança social na cidade de São Paulo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1979. p. 153-258 JAMES, Allison & JAMES, Adrian L. Constructing Childhood: theory, policy and social practice. New York: Palgrave Macmillan. 243 p. 2004.

MOLLO-BOUVIER, Suzanne. Transformação dos modos de socialização das crianças: uma abordagem sociológica. In: Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 26, n. 91, p.391-404, Maio/Ago. 2005.

MONTANDON, Cléopâtre. Sociologia da infância: balanço dos trabalhos em língua inglesa. In: Cadernos de Pesquisa, n.112, p.33-60. Mar/2001.

PLAISANCE, Eric. Para uma sociologia da pequena infância. In: Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 25, n. 86, p.221-241, Abril. 2004.

PROUT, Alan. The future of childhood: towards the interdisciplinary study of children. Great Britain: RoutledgeFalmer. 167p. 2005.

QUINTEIRO, Jucirema. Infância e Educação no Brasil: um campo de estudos em construção. In: FARIA, Ana Lúcia Goulart de; DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri & PRADO, Patrícia Dias. Por uma Cultura da Infância. Campinas (SP): Editora Autores Associados. 2a ed. p.19-48. 2005.

SARMENTO, Manuel Jacinto. Gerações e Alteridade: interrogações a partir da sociologia da infância. In: Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 26, n. 91, p.361-378, Maio/Ago. 2005.

______________ Visibilidade social e estudo da infância. In: VASCONCELLOS, V. & SARMENTO, M. J. (orgs). (In) Visibilidade da Infância. Rio de Janeiro: Vozes. p.01-20. 2006. SGRITTA, Giovanni B. Inconsistencies: childhood on economic and political agenda. Childhood. 4 (4): 375-404. 1997.

SIROTA, Régine. Emergência de uma sociologia da infância: evolução do objeto e do olhar. In: Cadernos de Pesquisa, n.112, p.07-31. Mar/2001.

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 11/03/2011, em Sociologia da Infância. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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