Futebol brasileiro e modernidade: por uma sociologia do futebol


Futebol brasileiro e modernidade: por uma sociologia do futebol

O futebol repete a sociedade e, ao se modernizar, não apaga traços do passado; no Brasil, como um todo, é o Estado que é visto, ora como “protetor” e “pedagogo”, ora como “o maior dos nossos males”

Rafael do Nascimento Grohmann

Um tema recorrente à agenda do futebol no país é a profissionalização, para, na visão de alguns, superar o atraso do “amadorismo”, pois teríamos que tratar o futebol como “negócio”. Junto a isso, vem o tema da necessidade de manter as principais estrelas do futebol em nosso país, visto que os que são considerados os maiores talentos com a bola nos pés jogam no exterior. Discussões como estas – como o lugar do moderno no futebol – nos trazem uma necessidade de mostrar o futebol brasileiro à luz das teorias políticas e sociológicas produzidas no Brasil, pois é impossível descolar este esporte de seu aspecto cultural, das interações entre o campo futebolístico e o campo social. Mas como podemos compreender a dicotomia atraso-moderno no futebol brasileiro, sem cair em uma razão dualista?

O jornalista americano Franklin Foer (2005) tentou, em seu livro “Como o Futebol Explica o Mundo”, mostrar o fenômeno da “glocalização”, de como alguns eventos podem ser globais, mas serem rearranjados de acordo com o local, com “processos de produção de sentido” diferentes, para dizer no linguajar interacionista. Ou, lembrando Oliveira Vianna (1974), temos que respeitar as especificidades brasileiras, e termos nossas próprias matrizes, sem depender dos outros; o capitalismo brasileiro é diferente do americano, por exemplo; não podemos enxergar o mundo de uma forma determinista e etapista. Robert Dahl (2005) nos fala que não existe apenas uma maneira, uma via de se chegar à modernização; não existe um “feudalismo à brasileira”, como acreditaram alguns teóricos clássicos. Do mesmo modo, podemos falar que não há um mesmo modo para se chegar a um bom nível de gestão do futebol e um bom nível de futebol jogado. Pode-se percorrer a via da tática, da força, da beleza, e juntar muitas características para se chegar a um ideal.

Percorrendo a tradição sociológica brasileira, Sérgio Buarque de Holanda (2006), em “Raízes do Brasil”, abordava como o personalismo e a plasticidade social foram cimentos sociais na cultura brasileira, pois aqui não sedimentou um modo de vida protestante, altamente racionalizado, como uma razão “tipicamente idealizada”. Buarque também considerava que aqui seria o lugar de vínculos pessoa a pessoa, com uma acentuação do lado afetivo irracional passional, sendo exatamente o contrário que parece convir a uma sociedade em vias de organizar-se politicamente; o mundo ibérico tem uma incapacidade de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal e mecânica. A contribuição brasileira para a civilização seria, pois, a cordialidade, onde, armado de uma máscara, o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social, a habilidade técnica de um jogador que pode desmontar qualquer esquema tático rigidamente treinado. Além disso, em seu outro livro, “Visão do Paraíso” (2000), o autor ressalta a vocação ibérica para o comércio exterior, e “vender o que há de mais raro” em terras tupiniquins – tema atual para a compreensão das transferências de jogadores, cada vez mais jovens, ao futebol estrangeiro.

Fonte: Universidade do Futebol

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 18/03/2011, em Sociologia do Futebol. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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