Sociólogo do mês Roberto Noritomi


Sociólogo do mês Roberto Noritomi

Já há tempos afirmamos que uma das áreas de atuação dos sociólogos brasileiros tem sido no legislativo, campo em que nossos colegas formados em Ciências Sociais atuam com maestria e são assessores disputadíssimos por parlamentares de todos os níveis, sejam vereadores, deputados estaduais, federais e mesmo senadores.

A entrevista deste mês é com um colega que atua como consultor legislativo na Câmara Municipal de São Paulo e que nos conta a sua experiência profissional nessa função.

Graduado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1992; mestre e doutor em Sociologia pelo departamento de Sociologia da USP com enfoque na área de cultura brasileira; desempenhou atividades profissionais como sociólogo no Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo (IMESC), onde foi diretor de pesquisas, e no Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa).

Também atuou como professor universitário e pesquisador de cinema brasileiro, tendo apresentado trabalhos em congressos e periódicos acadêmicos. Atualmente, após realizar concurso em 2007, ocupa o cargo de consultor técnico legislativo de Sociologia na Câmara de São Paulo e continua realizando pesquisas científicas.

Por que você decidiu fazer Ciências Sociais?

Decidi-me pelas Ciências Sociais porque eu tinha o interesse de realizar um curso no qual pudesse aprofundar estudos em questões relacionadas à política, tanto no plano histórico quanto no teórico. A ideia era entender a prática política com a qual eu começava a me envolver naqueles anos de “transição”, quando o debate político voltava à cena. Apesar desse objetivo original de estudar Ciência Política, ainda no primeiro ano orientei meus objetivos para a Sociologia política após entrar em contato com leituras, como as de Alex de Tocqueville, Max Weber e Florestan Fernandes.

Fale-nos, de forma resumida, como é a rotina de um sociólogo no poder legislativo – no caso municipal, em uma Câmara de Vereadores.

O sociólogo ocupa a função de consultor num sentido bastante amplo e que se constrói a cada dia, em decorrência da dinâmica dos fenômenos políticos e sociais vigentes no município. De forma sintética, o sociólogo compõe equipes multidisciplinares e presta consultoria para as várias comissões que compõem a instituição legislativa, e isso se dá da seguinte forma: fornecendo análises e dados sobre fatos do município; sugerindo e organizando debates e colaborando na elaboração de pareceres. No meu caso, presto consultoria para as Comissões da Área Social (saúde, educação, cultura, direitos humanos, criança e adolescente, etc.). Portanto, é bom deixar claro que o consultor legislativo não auxilia especi ficamente um parlamentar isoladamente, mas o corpo de parlamentares que compõe as Comissões. Quem assessora de modo pessoal o parlamentar é o funcionário de gabinete, contratado diretamente pelo vereador.

Você ajuda os parlamentares a preparar análise das propostas de políticas públicas desenvolvidas pela prefeitura de São Paulo. O que isso significa?

A questão das políticas públicas é um dos pontos fundamentais do trabalho do consultor técnico legislativo, em especial do sociólogo. Neste caso, a atuação se dá em duas frentes organicamente interligadas. Num primeiro momento, o sociólogo pode contribuir para o papel fiscalizador da Câmara por meio do trabalho de monitoramento, quantitativo e qualitativo, da estrutura, do funcionamento e dos resultados das ações do poder executivo. Com base nesse trabalho, são produzidas informações que poderão auxiliar os parlamentares das Comissões no acompanhamento das políticas públicas instauradas no município. Num segundo momento, mas muito afinado ao primeiro, o sociólogo pode prospectar tópicos e problemas que poderão ser incorporados na elaboração de sugestões de políticas públicas por parte das Comissões. De uma forma geral, o consultor de Sociologia deve acompanhar constantemente os processos sociais, identificando e mapeando agentes coletivos, pontos de tensão e instâncias de participação e de debate

Também entre suas rotinas, você levanta material de pesquisa para os parlamentares apresentarem proposituras legislativas. Como é esse trabalho e com que fontes você trabalha?

A propositura e a elaboração legislativas são de iniciativa estrita do gabinete do vereador. Aqui, a contribuição ocorre exatamente na elaboração de minutas de pareceres sobre projetos de lei no âmbito das Comissões. A partir da leitura de material teórico e empírico, são oferecidas referências para que as proposituras possam ser analisadas e avaliadas pela relatoria de uma determinada Comissão. Para tal atividade é preciso recorrer primordialmente a fontes de dados secundários constantes de relatórios de pesquisa, teses, censos, levantamentos epidemiológicos, etc. Tendo em mãos os dados das mais diversas origens, procede-se à interpretação sociológica e à sistematização em texto que será encaminhada aos parlamentares.

É preciso recorrer às fontes de dados empíricos, analisá-las e conhecer os debates políticos

Por que as Câmaras e outros poderes legislativos não criam o cargo especí fico de sociólogo para atuarem no seu corpo funcional? 

Talvez essa lacuna não tenha sido preenchida por falta de conscientização maior do poder público (executivo, legislativo e judiciário) quanto ao papel profissional do sociólogo. Mas isso não é simples, afinal, sabemos que uma série de obstáculos culturais e institucionais devem ser superados para que as pessoas compreendam a contribuição peculiar das Ciências Sociais. Infelizmente, essa superação não ocorre de maneira rápida, linear e unívoca. No caso da Câmara de São Paulo, a vaga foi criada por conta de pessoas que tinham conhecimento das ciências da sociedade e perceberam a necessidade de incorporar um profissional de Sociologia no contexto legislativo. Outras oportunidades poderiam ser criadas nos demais âmbitos legislativos, pois, como tenho percebido, a experiência na Câmara Municipal de São Paulo demonstra muito bem a necessidade de profissionais das Ciências Sociais no tratamento de uma série de questões e procedimentos não apenas estritamente legislativos.

Que conselhos e recomendações você daria a um estudante de Ciências Sociais que queira atuar como sociólogo nos poderes legislativos, ou seja, que saber especial eles devem deter?

O sociólogo no legislativo lida intensamente com as seguintes questões: a dinâmica político-partidária, as ações político-institucionais do Executivo e, inevitavelmente, toda a problemática social urgente ou não. Diante disso, o estudante de Ciências Sociais deve estar muito bem-informado pela imprensa (leitura diária de jornais) e deter conhecimentos de Sociologia e Ciência Política para poder interpretar os fenômenos político-partidários a partir das relações de constituição, consolidação e conflito dos grupos sociais, notadamente das classes. É necessário, também, saber recorrer às fontes de dados empíricos (relatórios sociodemográficos, epidemiológicos, censitários, etc.), analisá-las e ter familiaridade com os debates políticos em todos os âmbitos. Por fim, o estudante deve estar disposto e ter abertura para dialogar frequentemente com parlamentares de todas as correntes político-ideológicas. Este é outro aspecto importante do trabalho do sociólogo.

LEJEUNE MATO GROSSO DE CARVALHO é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). Possui diversos livros e artigos científicos publicados sobre a profissão. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 27/08/2012, em Diálogos com os Sociólogos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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