XI Seminário dos Pós-Graduandos em Ciências Sociais da UERJ


XI Seminário dos Pós-Graduandos em Ciências Sociais da UERJ

Foto: Fabrizia Granatieri

Foto: Fabrizia Granatieri

Entre os dias 27 a 30 de novembro de 2012, realizou-se o XI Seminário dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ)A lógica da Produção do Conhecimento nas Ciências Sociais” foi o tema central do evento.

Fui convidado para a abertura. Já participei de vários eventos em minha vida acadêmica e todos foram muito importantes. No entanto, foi a primeira vez que me concederam esta honra. Como sempre, é uma imensa responsabilidade corresponder às expectativas dos organizadores e participantes. Dessa feita, porém, havia o compromisso de falar sobre produtivismo acadêmico para um público de pós-graduandos submetidos à “espada de Dâmocles” das agências fomentadoras e à exigência de produtividade à qual se submetem os programas de pós-graduação e o corpo docente.

Comecei, então, por esclarecer o lugar da minha fala, ou seja, de alguém que participa do mesmo campo e, como eles, submetidos às regras do jogo. Fundamentei a exposição na teoria de Bourdieu, para o qual o campo é “um campo de força e campo de lutas que visam transformar esse campo de forças”. [1] O campo científico assume a forma de ummercado de bens simbólicos no qual é preciso investir. Sua estrutura não está dada a priori, mas define-se a cada momento pelo movimento da luta entre as forças, cujos protagonistas podem ser tanto os agentes sociais considerados individualmente, como os grupos e as instituições. Estes interesses em luta têm como ponto de partida uma estrutura, ou seja, uma determinada realidade social, constituída anteriormente pelas lutas que se processaram, cujos resultados encontram-se objetivados nas instituições. Por exemplo, as novas gerações só podem disputar os cargos porque a geração anterior conquistou o direito de que sua ocupação se desse pela escolha eleitoral.

Este mercado de bens científicos tem suas próprias leis, e estas “nada tem a ver com a moral”. [2] Trata-se de acumular capital social. O que predomina é o interesse! Na luta por este capital, os agentes sociais, individuais ou coletivos, adotam estratégias diferenciadas, definidas de acordo com a posição que ocupam no campo, isto é do capital acumulado e do poder que este lhe confere:

a) Estratégia de conservação: adotada pelo pólo dominante com o objetivo de perpetuar a ordem científica com a qual compactuam;

b) Estratégia de sucessão: adotada essencialmente pelos novatos, enquanto forma segura de ocupar posições no campo (não deixa de ser uma estratégia conformista, no sentido que aposta no sucesso da carreira acadêmica sem questionar ou conflitar, em sua essência, com o status quo predominante); tem o preço de se manter nos limites autorizados e pressupõe meios nem sempre louváveis, como por exemplo a bajulação, o silenciar, a adaptação às circunstâncias, a dissimulação;

c) Estratégia de subversão: esta é a estratégia que exige um investimento mais custoso e arriscado; os ‘lucros’ só serão alcançados com a redefinição dos princípios de legitimação de dominação, da consolidação de outro paradigma. É o caminho mais difícil, pois tem contra si toda a lógica do sistema e o discurso da competência científica. Trata-se, em suma, de instituir uma nova ordem científica herética.

As fronteiras entre as estratégias de conservação e de sucessão são tênues. A segunda pressupõe a assimilação, a adaptação ao paradigma predominante do campo científico. Muitas vezes, o discurso crítico, pretensamente subversivo, mascara práticas conservacionistas; da mesma forma procede o otimismo dos que se apegam às estatísticas e à uma ou outra mudança paliativa. Claro, há os que sinceramente acreditam no que dizem. Contudo, todos se veem diante do imperativo de jogar o jogo e, em maior ou menor grau, levar em consideração as regras do jogo – mesmo aqueles que adotam a estratégia da subversão.

No campo, nos posicionamos como jogadores, cuja única opção é a luta para manter ou conquistar posições, isto é, aumentar o capital específico gerado neste campo. Não há outra opção, desde que se faça parte do campo, senão jogar. “A única liberdade absoluta que o jogo concede é a liberdade de sair do jogo, por meio de uma renúncia heróica a qual, a não ser que crie um outro jogo, não obtém a ataraxia senão à custa daquilo que é, do ponto de vista do jogo e da illusio, uma morte social.”, afirma Bourdieu. [3] Ou seja, a opção é cair na obscuridade. Esta luta, o jogo, tem caráter concorrencial e, como tal, gera constrangimentos.

“Em suma, ninguém pode lucrar com o jogo, nem mesmos os que o dominam, sem se envolver no jogo, sem se deixar levar por ele: significa que não haveria jogo sem a crença no jogo e sem as vontades, as intenções, as aspirações que dão vida aos agentes e que, sendo produzidas pelo jogo, dependem da sua posição no jogo e, mais exatamente, do seu poder sobre os títulos objetivados do capital específico”. [4]

Estamos no mesmo campo, jogamos o jogo e, ainda que discordemos, legitimamos! É assim que as coisas se dão. Mas, como este jogo é jogado? É o reino do vale tudo? Será que todos somos delinqüentes acadêmicos? [5]Ao que parece, estamos condenados a se adaptar ou a lutar. A questão, portanto, pode ser resumida à relação entre os meios e fins. Maurício Tragtenberg, em A delinqüência acadêmica, deixa explícito que, no jogo, não valem todos os meios. Ou, como escreve Bourdieu: “Essa mesma lei que impõe a busca da distinção, impõe também os limites no interior dos quais tal busca pode exercer legitimamente sua ação”. [6]

O próprio campo institui normas – declaradas ou não – de procedimentos legítimos de distinção – sob pena de o campo degradar-se. As regras do jogo podem ser revistas, afinal estão em disputa. Vozes discordantes, protestos isolados e atitudes individuais – como a recusa a aderir aos programas de pós-graduação ou a saída destes, após longos anos de sofrimento – pressionam. Contudo, o que se vê é muito mais a pressão para auferir maior capital – financeiro e de bens simbólicos. Muitos reclamam contra as regras não para modificá-las substancialmente, mas para flexibilizá-las e, assim, também poder abocanhar um bom pedaço do bolo. Circulam reclamações contra as limitações dos editais, critérios de classificação de periódicos, etc. A crítica radical, isto é, que questione a ideologia produtivista e os critérios quantitativos que regem o publicar ou perecer, ainda é minoritária e/ou restrita a focos e indivíduos isolados.

Sim, há os que resistem! Ao optar por fazer uma reflexão crítica cuja temática é o produtivismo no campo científico, os organizadores se incluem entre os que, embora constrangidos a jogar o jogo, questionam as regras. São iniciativas como esta que nos faz acreditar na possibilidade de transformar a realidade, ainda que os otimistas renitentes, apegados em estatísticas quantitativas, insistam em que estamos no melhor dos mundos.

Agradeço, com sinceridade, aos organizadores pelo convite e a todos que compareceram. Espero, sinceramente, ter contribuído para a reflexão crítica sobre o tema. E que esta permaneça presente em nosso cotidiano no campus. Pois, se Bourdieu está certo, o campo permanece em disputa e permeável à subversão. Sejamos, então, subversivos!


[1] BOURDIEU, P. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983, p. 44.

[2] Id., p. 133.

[3] BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p. 85.

[4] Id., p. 85-86.

[5] Ver “Somos todos delinqüentes acadêmicos?”, publicado na REA, nº 88, setembro de 2008, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm

[6] BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974, p. 109.

Fonte: http://antoniozai.wordpress.com

Sobre Antonio Ozaí da Silva

Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 03/12/2012, em Ciências, Eventos, Extensões Universitárias, Iniciação à Pesquisa, Seminários, Sociologia Crítica. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Laís de Araujo

    Por favor mantenha este blog sempre atualizado com grandes informações

  2. Jair Santos Santana

    Um bom trabalho. A quantidade de blogs na internet que falam de vários assuntos está aumentando e no meio de tantos, o seu blog parece ser muito útil.

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