Estudos populacionais e demográficos


Estudos populacionais e demográficos

Por:  Lejeune Mato Grosso de Carvalho

Antônio de Ponte Jardim trabalha em um dos órgãos que mais contratam sociólogos no País, o IBGE. Aqui ele descreve mais uma das possibilidades de atuação em seu mercado de trabalho
 

Sociólogo, formado em Ciências Sociais. Fez especialização em Demografia ministrada pelo IBGE – Escola Nacional de Ciências Estatísticas e Pontifícia Universidade Católica – PUC/RJ. É mestre em Ciências Sociais, pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e Centro Latino-Americano de Demografia em 1980. É doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2001. Atualmente é pesquisador titular III (Sênior) da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Atua na área de Ciências Sociais aplicadas (Planejamento Urbano e Regional –subárea: Fundamentos do Planejamento Urbano e Regional), com ênfase em Metodologia, Ensino e Pesquisa.

Conte-nos como foi o processo de sua decisão de ser um sociólogo?

A minha decisão de ser sociólogo se deu muito depois da minha formação em Ciências Sociais (CS) em 1974. Veio através da minha inserção na prática profissional no IBGE e na luta pela organização da categoria, nos anos 1980, quando eu já havia regressado do mestrado em Ciências Sociais, no Chile. Em 1982, tomei conhecimento da existência da Associação Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro (APSERJ), da qual fui diretor até 1990.

A escolha pelo curso de Ciências Sociais veio após a minha desistência de fazer medicina. Desisti porque os meus pais não podiam me sustentar nesse curso. Comecei a questionar a ordem vigente e os problemas individuais, sociais e políticos na época. Eu queria fazer um curso que me ajudasse a entender os meus questionamentos de ordem interna, familiar e política.

Foi através de leituras da Última Hora que tive acesso às questões que podiam ser veiculadas pela imprensa sobre a insatisfação com a ordem social e política vigente. Eu gostava muito desse jornal. Foi através dele que tomei conhecimento do curso de CS. Logo pensei: este é o curso que eu quero fazer, pelo fato que ele me possibilitará ter acesso às possíveis explicações sobre os meus questionamentos individuais e sociais. Quando tomei conhecimento da grade curricular do curso, logo me interessei e prestei vestibular. A estrutura curricular me interessou muito, por me possibilitar o acesso aos conhecimentos de Sociologia, Antropologia, Etnologia e Etnografia e Ciência Política. Na ocasião ainda estava em vigor a LDB de 1961, que previa um núcleo comum para licenciatura e bacharelado. O acesso às disciplinas Sociologia, Filosofia e Antropologia marcou muito a minha formação.

O meu ingresso no IBGE se deu através do Censo Demográfico de 1970, como recenseador. Ao final do Censo, em 1971, me submeti a um novo concurso para trabalhar internamente como auxiliar censitário ao mesmo tempo em que fazia licenciatura. Foi uma época muito rica em discussões, ainda que veladas por estarmos em plena ditadura, com colegas que trabalhavam na apuração do censo e cursavam também Ciências Sociais e Sociologia e Política, nas diferentes universidades do Rio de Janeiro.

A prática associativa e sindical foi muito importante para a minha formação com o ingresso na Associação Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro (APSERJ) no início dos anos 1980. A fundação da APSERJ em 1981 tinha a perspectiva de vir a ser um futuro Sindicato de sociólogos, já que este era o caminho, de acordo com o Ministério do Trabalho na época, para nos tornarmos um sindicato no Rio de Janeiro. Primeiro, teríamos que passar a uma associação profissional para depois nos tornarmos um sindicato. A APSERJ foi pioneira no país, nesse movimento. Participamos da luta pelo reconhecimento da profissão de sociólogo e da sua regulamentação, em nível nacional, na época do governo Figueiredo. A minha militância estava associada à inserção no mercado de trabalho. Foi a partir dos anos 1975 a 1980 que os órgãos públicos, especialmente os ligados à pesquisa social, passaram a demandar por profissionais ligados às CS, mas geralmente burlavam a legislação profissional, em vigor na época, através de denominações genéricas como pesquisador, analista especializado, consultor, assessor, entre outras denominações.

O meu ingresso no IBGE se deu através do Censo Demográfico de 1970, como recenseador. Ao final do censo, em 1971, me submeti a um novo concurso para trabalhar internamente como auxiliar censitário

Estive à frente como vice-presidente de 1988 a 1992, quando me afastei por motivos pessoais. Participamos do movimento Diretas já. Foram momentos muito ricos para mim e demais colegas da APSERJ.

Você é antigo funcionário do maior instituto de estudos e pesquisas populacionais do nosso subcontinente. Um órgão no qual há centenas de sociólogos trabalhando. Fale-nos sobre como é esse seu trabalho e de outros colegas. O que fazem no IBGE esses profissionais?

O emprego de profissionais nas áreas de CS no IBGE data do início dos anos 1970. Éramos chamados de “analistas especializados”. Esta denominação continuou até os anos 1980. Hoje, com nova denominação, mas mantendo a essência de pesquisador, tecnologista, tecnólogo, analista e outros adjetivos. Os estudos e análises sobre a dinâmica demográfica, econômica e social da população brasileira, a partir de pesquisas contínuas (a exemplo dos resultados dos censos demográficos, econômicos, serviços, agropecuários e pesquisa por amostra domiciliar – PNAD), além de convênios geralmente feitos com outros órgãos do governo federal. Havia analistas especializados (formados nas áreas de ciências sociais e humanas), em quase todas as áreas e diretorias do IBGE.

Fotos: divulgação

A crescente complexidade da produção e disseminação de informações, aumento da demanda por novas informações e exigiram que a instituição optasse pela produção e disseminação de informações em detrimento da forma anterior de estudos. Esta tarefa passou a ser desenvolvida por pesquisadores externos (institutos de pesquisa, universidades, ONGs etc.). O projeto de inovação tecnológica da Instituição se aprofundou a partir dos anos 1990, via informatização das pesquisas, o que exigiu a capacitação de profissionais frente às novas demandas ocasionadas pelo processo de reestruturação da sociedade brasileira. Frente às novas exigências, o IBGE incentivou os seus técnicos de nível superior a especializar-se nas diferentes áreas de conhecimento. Hoje, a instituição tem cerca de duzentos doutores na ativa.

Não poderíamos deixar de abordar a temática da pirâmide populacional brasileira. As taxas de fecundidade das brasileiras vêm caindo de forma acelerada nas últimas décadas. Corremos o risco de termos um decréscimo da população nos próximos trinta anos? E fale do envelhecimento da população.

O declínio da fecundidade é um fenômeno mundial, principalmente em relação à população feminina com maiores taxas de escolaridade. No caso brasileiro, esse fenômeno se acentuou nas últimas décadas devido não só ao acesso e difusão de métodos contraceptivos (uso de pílulas, ligaduras de trompas, entre outros), mas também graças ao aumento da escolaridade e da inserção das mulheres no mercado de trabalho especialmente urbano. O próprio processo de envelhecimento da população é um indício do declínio da queda da taxa de fecundidade. A ideia difundida nos anos 1970 na qual éramos um país jovem e do futuro mantém-se ainda hoje.

Em relação ao decréscimo da população brasileira, não acredito que corremos o risco de termos um despovoamento do território nacional. Alçaremos possivelmente a uma população estacionária (onde a taxa de fecundidade se manterá ao nível de reposição da população, ou seja, cada mulher terá, em média, pelo menos, uma filha).

Como você tem visto o mercado de trabalho dos sociólogos brasileiros em outras áreas, além do serviço público e setor de pesquisa e docência? 

Em primeiro lugar, a atual fase do desenvolvimento técnico-científico é responsável pela concepção pragmática da formação dos indivíduos, inclusive nas CS, no sentido que somente “se aprende fazendo”, o que exige soluções rápidas pelos problemas que nos afligem no nosso cotidiano, que se torna cada vez mais regulado. Quando temos consciência dessa relação ela torna-se saudável, no sentido que nos permite uma formação aberta e plural, aumentando as possibilidades de escolha, assim como uma visão criativa e responsável, em termos éticos. Caso contrário, fragmenta-se o conhecimento cada vez mais.

Vivemos atualmente um dilema falseado, que se estabelece entre a formação do sociólogo e o mercado de trabalho, cuja problemática evidencia-se entre a formação genérica e, às vezes, fragmentada e reduzida, onde as áreas de atuação se tornaram amplas e, ao mesmo tempo, específicas e restritas, exigindo, na maioria das vezes, especialização ao nível de pós-graduação (Lato e Stricto Sensu). A meu ver, o que se necessita é de uma formação sólida no bacharelado e na licenciatura, com proposta da possibilidade de um curso de formação de sociólogo, antropólogo ou cientista político, como complementação do bacharelado, a exemplo do que vêm fazendo alguns cursos de bacharelato em Geografia e Psicologia com formação de geógrafo e psicólogo. Esta complementação contribuirá para uma sólida formação do sociólogo, embora se reconheça que acarretará custos adicionais para a universidade e para os próprios alunos.

De encontro a essa diversidade de profissões habilitadas para atuarem na área social, política, econômica e educacional, as empresas e instituições (públicas e privadas) tendem a contratar profissionais com formação genérica, mas “capazes” de elaborar análises e estudos sobre as diferentes instâncias da sociedade. Entretanto, a partir da formação básica e dos paradigmas desses cursos mencionados, na maioria das vezes, desconhecem os fundamentos teóricos e analíticos da análise social e política, ministrados nos cursos de CS e de Sociologia e Política.

A prática associativa e sindical foi muito importante para a minha formação com o ingresso na Associação Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro (APSERJ) no início dos anos 1980

Frente às mudanças que estão ocorrendo na economia e sociedade recentes, especialmente a partir dos anos 1990, exigem ajustes profundos, principalmente na estrutura organizacional da universidade, em relação ao ensino e pesquisa. Com o desenvolvimento de novas tecnologias, na área da informação e do conhecimento, emergem novos processos societários, responsáveis por novas escalas de conhecimento, o que implica em novas abordagens teórico-metodológicas, assim como o aprofundamento de questões emergentes, advindas de novas ações, em geral.

Por fim, que mensagem você teria, como ex-dirigente e líder da categoria, para essa nova geração que se esforça para manter abertas as entidades, as associações e os sindicatos? 

Para além da luta pelo reconhecimento de nosso trabalho, temos que lutar por formação sólida universitária, que nos possibilite a consciência política e organizacional frente aos novos desafios, promovidos pelo uso de novas técnicas informacionais, responsáveis por novos processos organizacionais e societários.

Fotos: divulgação

Hoje, as tecnologias informacionais redefinem o saber fazer e agir. Portanto, a forma organizacional passa a exigir a informatização dos sindicatos e das associações, a capacitação de seus associados e a prestação de serviços voltados para a defesa de interesses coletivos e particulares. As novas entidades de sociólogos devem estar capacitadas para entender os meandros, impostos pela reestruturação produtiva, poupadora de mão de obra, imposta por uma nova racionalidade instrumentalizada, que se impõe através das bases constitucionais da sociedade democrática de consumo dirigido, onde a presença das novas tecnologias informacionais torna-se obrigatória no ensino de modo geral, e no mercado de trabalho, potencializando conhecimentos e diferentes ações políticas. A nova agência humana emerge através de novos conceitos e categorias analíticas, que se fazem necessárias para explicar as novas relações sociais e de trabalho, cabendo ao saber sociológico a problematização desses conhecimentos, assim como a defesa dos novos nichos de trabalho, onde se faz necessária a presença do profissional de Ciências Sociais, e Sociologia e Política, assim como devem estar conectadas com as diferentes organizações de profissionais de Ciências Sociais, em nível nacional e internacional.

As tecnologias informacionais possibilitaram também o aparecimento de uma nova concepção de riqueza gerada pelo trabalho, numa nova configuração a partir da dimensão imaterial do trabalho, onde a circulação e concentração dos bens e serviços são gerenciadas por impulsos eletrônicos geradores, também, de exclusão social e profissional.

Cria o trabalho temporário. Por exemplo: a prestação de serviços especializados – via pesquisas, enquetes e assessorias, consultorias, entre outras atividades referentes ao sociólogo, que se torna difícil a participação desses profissionais nos sindicatos. Há que se ter presente que uma nova forma de saber não exclui conhecimentos sociais anteriores no sentido que estes são acumulativos. Soma-se a isto a questão das redes sociais que redimensionam os movimentos sociais vigentes, o governo eletrônico como forma dos eleitores acompanharem os seus representantes, entre outras categorias advindas do emprego de novas tecnologias. Estas questões têm que estar presentes na nova organização sindical, especialmente a dos sociólogos.

Frente a esses novos desafios, há outro fator determinante, que é baixa filiação de profissionais liberais aos seus sindicatos, especialmente os de sociólogos. Há necessidade de tornar os sindicatos atrativos, via cursos de especialização, nas diferentes áreas das CS, assim como campanhas efetivas junto às universidades e o cumprimento da legislação em vigor, referente à categoria profissional.

* Lejeune Mato Grosso de Carvalho é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato de Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 09/02/2013, em Diálogos com os Sociólogos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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