A nova Sociologia


A nova Sociologia

Diretor do Sinsesp, Ruy Braga, da USP concede entrevista a um blog do Globo

O desafio não é pequeno, mas talvez seja inevitável: assumir o engajamento como parte inerente da atividade do sociólogo. No livro “Por uma Sociologia pública” (Alameda), escrito a quatro mãos pelo professor de Sociologia da USP Ruy Braga e pelo eminente sociólogo americano Michael Burawoy, apresentam-se os princípios e as mais recentes discussões sobre o tema na área acadêmica. Distinguindo a Sociologia pública da Sociologia profissional, a primeira é de certa forma mais flexível, mais porosa às transformações de uma sociedade globalizada, e nela o pesquisador assume a impossibilidade de neutralidade científica. Obviamente, trata-se de postura pode implicar riscos, como o da perda da objetividade, e um dos desafios do livro é oferecer subsídios teóricos para lidar com pólos não raro conflitantes. A obra, que intercala artigos de Braga e Burawoy, conta com prefácio do Francisco de Oliveira, importante sociólogo da USP, que a qualifica como “banquete”. Nesta entrevista, Ruy Braga comenta e explica questões suscitadas por esta corrente de pesquisa, que se relaciona aos movimentos sociais.

A defesa que vocês fazem da “Sociologia pública” é uma tentativa de modernizar um campo de estudos que, com as recentes transformações da sociedade, vinha perdendo vigor para interpretá-la? 

RUY BRAGA: Em primeiro lugar, caberia esclarecermos algo acerca da própria noção de “Sociologia pública”, isto é, uma prática científica que se orienta por formas críticas de conhecimento e que valoriza abordagens reflexivas das relações sociais. Trata-se de uma Sociologia profundamente enlaçada com audiências extra-acadêmicas e que busca, por meio de um diálogo com diferentes públicos, desenvolver o conhecimento sociológico por meio da interação, sobretudo, com os movimentos sociais. Costumo dizer que a Sociologia pública veio para realçar a centralidade do conhecimento dos subalternos num contexto histórico marcado pelo avanço da privatização da vida social. Se a economia apreende o mundo através das lentes do mercado e a ciência política através das lentes do Estado, a Sociologia pública pretende apreender o mundo através das lentes das classes subalternas. Nesse sentido, a Sociologia pública tem muitas semelhanças com aquilo que Pierre Bourdieu chamou de “esporte de combate”. Ou seja, um tipo de conhecimento científico construído por intermédio da crítica à tirania do Estado e ao despotismo dos mercados. Voltando para sua questão, diria que sim. A Sociologia pública pretende revigorar o conhecimento sociológico na medida em que busca romper com o processo de ultra-especialização e encastelamento universitário que o campo sociológico experimenta no Brasil e nos Estados Unidos. Além do mais, se entendermos que “modernização” aqui significa algo como uma tentativa de “atualização”, diria igualmente que sim. A Sociologia pública objetiva compreender o contexto de expansão e de crise do neoliberalismo. A Sociologia pública é uma prática científica capaz de revelar as bases desse avanço desmedido da mercantilização que vivemos ao longo de décadas de hegemonia neoliberal no Brasil e no mundo, assim como a Sociologia pública pode nos auxiliar a compreender e a transformar a face desse capitalismo financeirizado ao auxiliar os subalternos a identificar vias progressivas para a superação da crise atual.

O livro é escrito por um brasileiro e um americano. São duas sociedades bem diversas – embora talvez a nossa venha se americanizando cada vez mais, em termos sociais, com a emergência de vozes relacionadas a movimentos como o feminista, o de negros ou homossexuais. O que podemos dizer sobre aproximações e divergências numa sociedade e noutra, no que se refere ao objetivo de vocês: a defesa da “Sociologia pública”? 

BRAGA: Entendo que apesar das diferenças, e são, de fato, enormes, entre esses países, temos também muitos aspectos em comum. O mais importante deles é aquilo que no livro chamamos de “Terceira Onda da Mercantilização”. Basicamente, trata-se do processo de avanço das forças de mercado iniciado com Ronald Reagan e Margareth Thatcher no final dos anos 1970 e que, como sabemos, transformou profundamente a face do globo nas últimas décadas. Dessa perspectiva, a realidade brasileira e a realidade estadunidense estão muito conectadas e, quer estejamos estudando o mundo do trabalho, a violência urbana, as desigualdades raciais, os movimentos sociais, as novas formas de degradação da natureza, quer estejamos lidando com questões mais abstratas e teóricas, devemos considerar essa conexão. Tomemos como exemplo a crise atual da General Motors. Evidentemente, existe uma conexão muito íntima entre o colapso dessa empresa nos Estados Unidos e as demissões recentes no Brasil. Outro exemplo? É possível debatermos o sistema de cotas para grupos sociais subalternos no Brasil e a luta contra a desigualdade racial sem nos remetermos à história dos movimentos civis nos Estados Unidos? Ou à teoria da justiça de John Rawls, o mais conhecido e celebrado filósofo político estadunidense? Os exemplos poderiam ser multiplicados – tanto em relação aos Estados Unidos como em relação a outros países, vale dizer. Mas, o fato é que um tipo de conhecimento ultra-especializado e fetichizado nunca será capaz de dar conta dessas realidades que costumo chamar de “transversais”. Em nossa opinião, um estilo de Sociologia crítico, reflexivo e fortemente enraizado na sociedade civil será capaz de apreender melhor as características dessa realidade transversal que chamamos de Terceira Onda da Mercantilização do que um conhecimento instrumental e limitado às audiências acadêmicas.

No prefácio, Francisco de Oliveira faz referência à importância histórica da Sociologia para a organização da classe trabalhadora no país, e para um partido como o PT. Essa associação – intelectual/ trabalhador – já nos dá um bom exemplo de uma Sociologia pública, embora naquela época a expressão ainda não fosse corrente? 

BRAGA: Sem dúvida. A Sociologia no Brasil não pode ser pensada sem esse vínculo com os movimentos sociais, em geral, e com o movimento operário, em particular. Essa foi a realidade de parte importante da Sociologia brasileira ao longo dos anos 1970 e 1980. Quantos sociólogos brasileiros não se envolveram nas lutas sociais pela redemocratização do país e refletiram profundamente acerca da natureza desse processo e de seu próprio engajamento em livros, teses e artigos? Quantos sociólogos não se engajaram em movimentos sociais progressistas dialogando ativamente com os grupos sociais subalternos? Bastaria citar um: Florestan Fernandes. Reconhecendo isso, o próprio MST há alguns anos homenageou o mestre da Sociologia da USP ao batizar sua escola nacional de formação de quadros, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A figura do sociólogo como uma espécie de “companheiro” dos movimentos sociais foi algo extremamente comum no Brasil dos anos 1970 e 1980. Queremos revivificar a Sociologia contemporânea por meio da revalorização dessa herança: a do sociólogo engajado com os movimentos sociais em questões de relevância pública em permanente diálogo com audiências extra-acadêmicas e esforçando-se para transformar a face dessa nossa realidade tão contraditória e tão desigual.

Como professor da USP, casa de sociólogos ilustres, como Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso – só para citar dois -, como situa sua posição face às correntes que marcaram o estudo da disciplina na instituição? 

BRAGA: É uma questão muito difícil de responder, pois as correntes que marcaram e continuam deixando suas marcas na Sociologia da USP são muito diversas. Mas, diria que, em geral, além da raiz clássica – a valorização do legado de Marx, Weber e Durkheim – a Sociologia da USP é fortemente vertebrada pelo pensamento crítico e reflexivo. Além disso, o Departamento de Sociologia sempre contou com importantíssimos sociólogos públicos. Você citou Fernando Henrique Cardoso, mas eu lembraria Francisco de Oliveira e José de Souza Martins, por exemplo – além de tantos outros. A atual defesa de uma Sociologia pública dialoga com essa tradição “uspiana”: o engajamento social, o debate público, o pensamento crítico, a abordagem reflexiva, a participação política.

A defesa da Sociologia pública representa também uma espécie de embasamento teórico para justificar o engajamento do intelectual? Representa a volta do intelectual engajado, participante na sociedade? (certamente com características diferentes das que tinha nos anos 1950 ou 1960, por exemplo) 

BRAGA: Os tempos são outros, tens toda razão. E a Sociologia pública fala sempre de um ponto de vista que valoriza as teorias e os métodos científicos. A Sociologia pública busca se nutrir daquilo que existe de melhor na Sociologia profissional: os métodos, a seriedade, a pesquisa, o diálogo com os dados, a profundidade do conhecimento… Além de tentar evitar as “patologias” da Sociologia profissional: o fetichismo, a perda de contato com a realidade social, o descompromisso social… No limite, a irrelevância. Quero dizer com isso que a Sociologia pública não pode jamais abandonar seu compromisso com a busca de um conhecimento objetivo em benefício dos interesses de um movimento social específico ou de um partido político particular. É através desse compromisso com a objetividade científica que a Sociologia pública poderá ser útil aos movimentos sociais e às tarefas de superação das desigualdades – o próprio Lênin dizia que a verdade é revolucionária, não é mesmo? Mas, sim. Trata-se de um tipo de conhecimento “engajado”. A Sociologia pública parte de duas perguntas básicas: “Sociologia para quê?” e “Sociologia para quem?” Entendemos que não há conhecimento social “neutro”  –  apesar de existirem procedimentos que garantam um conhecimento social mais “objetivo” do que outros – e, portanto, “desinteressado” ou mesmo “universal” – isto é, válido para todas as classes. Portanto, no coração mesmo da Sociologia pública vamos encontrar uma reflexão acerca da relação entre teoria social e prática política que a Sociologia profissional, por exemplo, tem dificuldades de empreender.

Há um capítulo interessante seu, sobre uma Sociologia pública para o ensino médio. Qual seria sua importância? Como e por que torná-la uma realidade? 

BRAGA: Este tema tem me empolgado muito nos últimos anos. Penso que estamos diante de uma oportunidade única de promover o conhecimento sociológico no Brasil. Como sabemos, no dia 2 de junho de 2008, José de Alencar sancionou o projeto de lei que tornou obrigatórias as disciplinas de Sociologia e Filosofia nas três séries do Ensino Médio em todas as escolas brasileiras. Esse ato não apenas coroou mais de trinta anos de lutas – em 1971, as disciplinas de Filosofia e de Sociologia deixaram de ser lecionadas nas salas das escolas de ensino médio por determinação da ditadura militar – de várias entidades, organizações de classe e movimentos sociais pela reintrodução da Sociologia como disciplina obrigatória para a formação educacional e cidadã de nossos jovens, como também lançou um enorme desafio para o campo sociológico brasileiro: atravessar o verdadeiro abismo que separa a Sociologia profissional da realidade do Ensino Médio no país. No livro, sustento que essa empreitada deva ser sustentada não apenas nas discussões sobre conteúdos curriculares, sobre a formação de professores ou por meio da Sociologia da educação. Tudo isso é, naturalmente, muito importante. Mas, devemos ir além e buscar conectar o estudante de graduação de Sociologia com o estudante do Ensino Médio por meio da Sociologia pública. É preciso construir com nosso primeiro e mais importante público, ou seja, nossos próprios estudantes, um campo reflexivo comum que, aproveitando seus múltiplos interesses de pesquisa transforme a escola pública em um “laboratório” de experiências e intervenções que eles de outra forma jamais teriam acesso. É preciso agir priorizando a produção do conhecimento sociológico para reavivar em nossos graduandos o encantamento pela educação pública. E temos os meios para isso. Desde 2006, o estágio supervisionado tornou-se parte da grade curricular das licenciaturas dos cursos de Ciências Sociais e não mais responsabilidade exclusiva das faculdades de educação. Ao se envolverem com o sistema público de ensino por meio da produção de conhecimento sociológico novo, eles fatalmente se interessarão pelas contradições e pelos desafios atuais da escola, interessados em se tornar professores da rede ou não. Assim, a experiência do estágio sob responsabilidade dos cursos de ciências sociais poderá se transformar em uma oportunidade verdadeiramente única de exercício pleno das várias competências científicas e políticas de nossos estudantes.

Enviado por Rachel Bertol – (http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/05/18/a-nova-Sociologia-186966.asp)

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 16/02/2013, em Diálogos com os Sociólogos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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