Ler, só com prazer


O bom leitor se forma sozinho, se os livros não forem uma obrigação, e se tiver estímulos em casa e na escola.

Texto de Verônica Couto

Quando as crianças brigam com os livros? Em qual momento desaparece a necessidade inegociável de ouvir uma história de antes de dormir, a intimidade com os ogros e as fadas, a capacidade infinita de fantasiar? Na curva perigosa da adolescência – é a resposta da escritora Heloísa Prieto, autora de 52 livros juvenis e consultora pedagógica. A fase mais grave de abandono da leitura, em sua opinião, acontece do 5o ao 8o ano: “Nos primeiros anos do ensino fundamental, em geral, as escolas fazem um trabalho legal com leitura. O problema é o pré-adolescente, que vira um órfão nessa área”. Bem no momento em que começa a disputa do jovem por outras mídias, em especial as digitais, mais dinâmicas, mais atrativas.

Um dos aspectos que marca a perda de interesse, nessa idade, é a saída de cena das obras ilustradas, muito presentes na infância. “Trata-se de uma questão de mercado, porque não há nenhuma razão obrigatória para que os livros dos jovens tenham de perder as ilustrações”, diz a autora. Como exemplo, ela cita os livros do escritor francês Guy de Maupassant, do século 19, que tiveram edições importantes, fartamente ilustradas.

Outro balde de água fria em quem está fazendo as primeiras descobertas literárias: o rigor nos critérios de “qualidade do que se lê”. Pré-adolescentes e adolescentes, começam a circular entre eles livros não recomendados pelos adultos. “São como bibliotecas secretas. Ele leem coisas que tratam de drogas, com personagens atormentados”, conta a escritora. Em vez de criticar as obras, em sua opinião, seria mais eficaz respeitar essas escolhas. Assim como educadores recomendam em relação a programas de TV, em vez de proibir, é melhor sentar junto e conversar sobre o que a criança está lendo, ajudá-la a fazer uma análise crítica do que o livro traz. Ou seja, tentar detectar e otimizar os interesses do pequeno leitor. Heloísa – ganhadora de um Prêmio Jabuti pela coordenação da coleção juvenil Ópera Urbana, da editora Cosac Naif, para a qual escreveu Cidade dos Deitados – diz que é muito comum, nessa faixa etária, as crianças gostarem de biografias de esportistas, contos e narrativas fantásticas: “Eles começam a ter seus gostos, e cabe aos adultos lidar com essa multiplicidade de repertórios, propiciar trocas e rodas de leitura”.

Portanto, vale perguntar, na escola, quais são as estratégias para estimular e reforçar nos alunos o vínculo com os livros. Em um antiexemplo radical, o filho de uma amiga de Heloísa foi proibido pela professora de ler Contos de Dinossauro, do norte-americano Ray Bradbury, um dos maiores escritores de ficção científica do mundo – autor, por exemplo, da novela Fahrenheit 451. Não bastasse o texto de primeira linha, o livro vetado tinha ilustrações de Moebius, conceituado artista francês contemporâneo. “Está lá o conto “Som do Trovão”, com todas as questões éticas e valores da atualidade”, lamenta a escritora.

Se a criança tem gosto pela leitura, pode ser que mantenha a prática iniciada na infância e chegue ao 8o ano lendo Raquel de Queiroz, Clarisse Lispector etc. Caso contrário, corre o risco de desistir. Para evitar que isso aconteça, Heloísa acredita em um trabalho maior das escolas com as questões do gênero literário e da linguagem: “Estudar como se produz e o que é suspense; a função da interrupção narrativa, as técnicas”. A escritora, que pilota oficinas com crianças e professores da rede pública, tem experiências de sucesso com produção de jornais e interação com outras mídias, como filmes ou jogos de RPG. “É preciso um diálogo com o contemporâneo. Dizem que os jovens não leem. Mas os best-sellers são todos dirigidos a jovens, como as séries Crepúsculo e Harry Potter”, ressalta.

Aproveitar o que está na moda para estimular a leitura é uma atitude prática, que serve em casa e na escola. Nos livros da série Crepúsculo (Stephenie Meyer), por exemplo, há referências a obras relevantes, como O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Uma ótima oportunidade para oferecer ao jovem a leitura do clássico. “Os estudos da linguagem, da literatura e da escrita são muito idealizados. Stephen King começou a escrever publicando contos em revistas femininas, assim como Silvia Plath. Alexandre Dumas era um personagem do bulevar, do jornal. Shakespeare era popular. Mas, aqui no Brasil, há uma dicotomia entre o muito erudito e o analfabeto, um mito que vai ao encontro da noção de casa-grande e senzala”, analisa a autora.
Encantamento

Na educação infantil, o estímulo à leitura acontece por “encantamento”, ensina a coordenadora do núcleo de práticas de linguagem de uma escola particular da zona oeste paulistana, Andréa Luize. Os professores leem em sala de aula e, uma vez por semana, levam as crianças a visitas à biblioteca, onde são encorajados a pegar livros emprestados. Além disso, em todas as séries da educação infantil, as crianças vivenciam determinadas “sequências de leitura”. “Por exemplo, aos três anos, trabalhamos os contos de fada e conversamos sobre o lobo. É o mesmo lobo nas várias histórias? Quais as características dele? E assim por diante, de modo a ajudar a criança a construir um discurso sobre literatura. Para que ela saiba falar alguma coisa sobre o autor, o gênero, o tipo de personagem”, conta Andréa.

As turmas dos pequenos, com 4 anos, “brincam” com os poemas dos livros da dupla de autores Lalau e Laurabeatriz. São poemas curtinhos, com muitas rimas, que as crianças memorizam rapidamente. Os gêneros e estilos se diversificam no ano seguinte, quando os trabalhos de leitura se concentram na obra da escritora e desenhista Eva Furnari. “É uma autora muito lida que trabalha com diferentes textos, ritmos, imagens”, explica Andréa. Quanto mais as crianças sabem sobre gêneros e autores, mais elementos elas podem incorporar à própria apreciação das obras. E tudo isso acontece em rodas de conversa.

A partir do primeiro ano do fundamental, a escola insere a leitura compartilhada. Os alunos têm os livros em mãos para acompanhar o professor e podem voltar várias vezes ao texto. “Nesse caso, trabalhamos com livros que estão um pouquinho além da possiblidade de leitura dos alunos, o que justifica esse trabalho em sala”, relata Andréa. As visitas à biblioteca continuam, cada vez mais por conta do próprio aluno, que também deverá, agora, participar da construção de um acervo de livros em sala. Todos trocam livros, fazem rodízios, sugerem títulos. As propostas da escola são idealizadas para que os alunos se formem como leitores – mais do que como autores.

Até o final do ensino médio, a escola mantém a prática de ler em sala, espaço para discutir também o que os alunos leram sozinhos, em casa. A preocupação é nunca abandonar essa leitura. “Quando o aluno dá conta de ler autonomamente, por volta do terceiro ano do fundamental, é o momento em que pode ocorrer se perder esse leitor. Especialmente na adolescência, período de muitos outros interesses. A escola tem o papel de segurar esse leitor. Por isso, precisa continuar lendo em sala”, explica Andréa.
A barreira dos pais

Muitas escolas fazem rodas de histórias, têm estantes generosas, criam redes de trocas de livros, contação de histórias dramatizadas. As propostas pedagógicas são excelentes, diz Heloísa, a dificuldade maior é com os pais. Não são poucos os adultos capazes de gastar um salário mínimo (R$ 545,00), ou mais, em um tênis, mas consideram o livro um produto caro. Nem reservam mais espaço, em casa, para guardar livros. O acesso à leitura, dessa forma, fica cada vez mais restrito. “Em tese, os pais nem precisariam ler. Mas teriam de dar o dinheiro para os meninos, talvez criar uma mesada para livros”, sugere Heloísa, que também recomenda a leitura antes de dormir, entre os rituais que propiciam o “enlevo” com o livro.

No outro extremo, estão os pais que confundem seu papel com o da escola e estigmatizam o livro como castigo. “O professor é que precisa cobrar a leitura”, alerta a escritora. “Em casa, a criança pode largar o livro no meio, ter outra relação, fazer o que bem entender. Exatamente como fazem os pais”, acrescenta. Aliás, o direito de largar o livro inacabado, lembra a escritora, é um dos dez “direitos do leitor” (veja o quadro) apontados pelo romancista e professor francês Daniel Pennac, no ensaio “Como um Romance” (Rocco/LP&M Pocket), em que analisa estratégias destinadas a estimular a leitura nos jovens. Para ele, o fundamental é recuperar o sentimento de prazer associado à leitura. Derivado, em grande parte, afirma, da leitura em voz alta, que deixamos de fazer ao crescer.

Pedro, de 11 anos, sempre teve essa liberdade de leitor. Nunca foi obrigado a concluir livros que o desinteressaram. Aos nove, arriscou Os Três Mosqueteiros, mas não chegou a concluí-lo. “Achei chato”, diz. Mesmo assim, tem sido um leitor intensivo, que lê em diferentes horas do dia, à noite – sempre – e, para desespero dos demais integrantes da família, também no banheiro. Segundo a mãe, a advogada Marisa Vilarino, ao longo de um ano, o menino leu os seis volumes da coleção Percy Jackson e os Olimpianos, do norte-americano Rick Riordan; três títulos do filósofo Jostein Gaarder (de O Mundo de Sofia); e acabou recentemente Mitos e Lendas – Origem e significados, de Philip Wilkinson, descolado da prateleira da mãe. Ela acha que o gosto pela leitura surgiu com o costume: “Sempre levamos as crianças a bienais e livrarias. Ele já foi a três edições da Flip-Feira Literária Internacional de Paraty. Pegamos o jornal de manhã para ler, ele pega o livro. Líamos antes de dormir. Agora, ele criou seus próprios horários”. E também suas próprias preferências. Recentemente, leu quadrinhos do Calvin, Diário de um Banana, A Odisseia na versão de Ruth Rocha, O Gênio do Crime, O Dia em que Felipe Sumiu etc. Gostou de muitos. Mas de nenhum como daqueles que tratam de mitologia grega.
Refletir a vida

Um leitor tem uma “solidão fabulosamente povoada”, escreve Pennac. E uma visão do mundo muito mais afiada, segundo a avó da escritora Heloísa Prieto. “Ela dizia que, para ler a vida, temos de ler os livros. O leitor tem uma relação com a vida completamente diferente; uma reflexão constante. “Mesmo a moçada que se apaixonou pelos vampiros e dráculas da série Crepúsculo está voltada para seus desejos, suas necessidades internas. “O livro tem muito idílio, conversas, cenas e cenas sobre o tempo, aquilo que os jovens estão indo buscar”, afirma. Além de enriquecer as relações humanas e com a vida, a leitura, destaca ela, também vai deixar o jovem muito mais capacitado profisisonalmente.

Os livros são capazes de transformações incríveis nas pessoas. A escritora Mahyra Costivelli, autora do infantil Ledazeda (Grão Editora), formada em Psicologia, trabalha no projeto Fazendo a Minha História, que busca resgatar a história de vida das crianças que vivem em abrigos. A partir da leitura dos livros, elas são convidadas a falar de si mesmas, até construírem um álbum com textos, desenhos, lembranças. “Não pedimos resumo dos livros, nem interpretação. Estamos preocupados com o que, no livro, toca a criança. É uma experiência bem livre”, explica. Para o trabalho com a leitura, os grupos são divididos por idade: até 11 anos; e de 12 a 18. “Os adolescentes têm um histórico de fracasso escolar muito grande. E muitos não sabem ler direito. Por isso, sentem medo de tudo que está associado a livro. Resistem. Mas, se deixamos os livros lá por perto, sem pressão, eles acabam escolhendo algum.”

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 01/05/2013, em Leitura & escrita. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: