Quando o aluno vai mal e a escola também


Notas baixas, indisciplina e resistência a estudar podem indicar que é preciso olhar diferente para esse estudante e mudar a forma de ensinar.

Texto de Verônica Couto


Liliane, mãe de Laura: a dificuldade era de fundo emocional

No final do 8º ano, quando Laura estava com 13 anos, o pai dela se casou de novo, foi morar em outro bairro e ela precisou trocar de colégio. Deixou uma metodologia mista, baseada em material apostilado, “uma mistura de tradicional com construtivista”, segundo a mãe, Liliane Ribeiro. E ingressou em uma escola católica, “tradicional mesmo”. Nos primeiros meses de aula, ficou evidente o impacto da mudança. As notas despencaram. Algumas até o chão, ou seja, a zero. Uma amiga da mãe formada em física deu aulas para a garota, que também ficou na chamada recuperação – reforço escolar, em geral em turno alternado, que antecede uma segunda avaliação. Não foi isso, contudo, que recuperou em Laura o interesse e as boas notas. Mas a capacidade dos pais e da escola de ir além da repetição dos conteúdos e de buscar as respostas nos sentimentos da adolescente. “Descobri que ela estava sendo rejeitada e não tinha amigos. Por isso, faltava muitas vezes às aulas”, explica Liliane.

O caso de Laura é frequente nas escolas. O que não é frequente é a capacidade da escola e a sensibilidade da família para encurtar o caminho até a solução. Em geral, o aluno com dificuldades de aprendizagem enfrenta um longo e doloroso caminho, sendo bombardeado por cargas de estudo extras e recebendo mais, do mesmo – o que não garante melhores resultados. A professora de Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ana Bock, explica onde está o equívoco dessa estratégia e por quê é preciso adotar uma nova forma de lidar com as notas baixas: “A rigor, a gente nunca deveria falar de crianças com dificuldade, mas em dificuldade no processo ensino e aprendizagem”, ressalta. Porque, alerta a educadora, apesar de o processo ser único para um conjunto de crianças, elas não são iguais.

O professor deve ser capaz de “singularizar”. Ou seja, considerar se o aluno não está enxergando direito, ouvindo bem, se é mais distraído, conversador. O jeito de ensinar precisa tomar formas diferentes, de acordo com o perfil e as particularidades da criança, suas necessidades individuais. Às vezes, o professor até consegue ter essa percepção, mas não dá conta de dedicar a cada aluno uma prática diferenciada porque não teve um formação de qualidade, que o preparasse para essa diversidade, ou porque não tem condições estruturantes, por exemplo, como uma sala com quantidade excessiva de alunos.
Tempo para conversar

“A origem dos problemas nunca está na criança. É verdade que algumas têm dificuldade de prestar atenção. Mas alguns professores e métodos de ensino também não sabem lidar com elas”, acredita Ana. Logo, providência importante para ajudar um filho que não está se saindo bem nas avaliações e nos trabalhos é perguntar como ele se sente em relação ao processo de ensino e aprendizagem e tentar descobrir o que ele está precisando para se desenvolver melhor. Da escola, espera-se que faça o mesmo. Como aconteceu no caso de Laura. Os pais dela procuraram a coordenação para discutir o desempenho e o comportamento da filha. “Achei muito boa a maneira como eles agiram. Todos os professores abordaram a questão dentro das disciplinas. Numa aula de ciências sociais, se iam falar de discriminação, usavam exemplos da própria escola. Abordavam as diferenças, a dificuldade em lidar com novo, o bullying”, conta a mãe. O resultado foi que Laura se enturmou e as notas subiram.

O especialista em psicopedagogia clínica Salatiel da Rocha Gomes enumera alguns fatores que podem explicar por que uma criança não aprende: “Dificuldades de compreensão, falta de estímulo, falta de conhecimento prévio, más condições de infraestrutura da escola, professores desqualificados, currículo inadequado, problemas familiares etc. Cabe aos pais e professores investigarem. Aliás, esse é o maior desafio, fazer pesquisa na prática cotidiana”.

Recuperação e aula de reforço funcionam? Na opinião de Ana, são paliativos, recursos emergenciais. “Se o aluno foi a um professor particular ou a um psicopedagogo e deu certo, é porque esse profissional atendeu a criança na sua especificidade, do jeito que ela precisava”, afirma. Em geral, os professores de classe não têm tempo para uma intervenção mais profunda. Dão a matéria, passam o exercício, vão embora. Não têm disponibilidade para bater um papo, conhecer as histórias pessoais, detectar as angústias de uma separação dos pais, do nascimento de um irmão.
Bolinhas de gude

As classes de reforço, embora com limitações, podem ser uma oportunidade para tratar o aluno com mais atenção, fortalecendo nele essas relações. “Com o cuidado de não estigmatizá-lo, nem expô-lo para a turma por estar em uma classe separada”, adverte Ana. A especialista recomenda também diversificar atividades, para se ter mais chance de atingir um número maior de crianças. Isso significa promover feiras de ciências, concursos, formação de times, aulas de capoeira, banda, coral, grupo de teatro. Ana ressalta a importância de adotar recursos como vídeos, pesquisas na internet e outras ferramentas dinâmicas. Silvia Collelo, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), concorda: “Em pleno século 21, a metodologia está muito desafada. É o método GLS – giz, lousa, saliva. O fato de as escolas não terem o preparo adequado faz com que fabriquem o fracasso escolar, que se manifesta pela não aprendizagem, pela indisciplina, a apatia, o desinteresse”.

A maior parte das escolas, no entanto, trabalha mesmo com o sistema de recuperação. Não aprendeu da primeira vez, vai repetir a lição, ter mais aulas.  Mas o resultado não é eficaz, na opinião de Sílvia Collelo: “Na pressão, os meninos acabam dando conta daquela matéria. No dia seguinte da prova, vão esquecer tudo o que estudaram. O que não é significativo não fica”. Ela também defende, em vez disso, novas posturas na relação entre ensino e aprendizado. Como a de um certo professor de matemática que fez um campeonato de bolinhas de gude entre os alunos. A atividade envolvia muitas operações de soma, divisão e multiplicação para contagem de pontos. Ele também trabalhava com jogos de percurso com uma complexa pontuação. Investir em formas lúdicas é uma estratégia para aproximar o ensino da realidade das crianças. Assim, fica mais fácil assimilar os conceitos teóricos.

A pior medida, para Ana Bock, é buscar apoio fora da escola, com o famoso (e caro) professor particular. Mesmo assim, é um recurso comum. “O pai de classe média faz o que for necessário para seu filho ir bem na escola. Paga o que precisar e facilmente apela para professores particulares ou psicopedagogos. E os pais de classe média baixa, que não podem fazer isso por razões econômicas, ficam mortos de culpa. Mas a verdade é que, na maior parte dos casos, a escola teria de ser capaz de resolver a situação”, acrescenta Sílvia. Ana Cristina Bretones, mãe de Gabriel, de 14 anos, comprova: “Em 2009, troquei meus dois filhos de escola, de uma menor, com atendimento individualizado, para uma maior. Ambos tiveram dificuldade de adaptação, mas o Gabriel teve problemas no desempenho escolar. Comecei a me preocupar e tentar ajudar nas lições de casa. Não deu certo, as notas vieram baixas. Fui até a escola pedir ajuda e acabei nas aulas particulares, mas continuou o mesmo desempenho de quando eu tentava ajudá-lo em casa”. O menino só melhorou o desempenho quando, sob orientação de uma psicopedagoga, a família entendeu que ele precisava de um tempo diferenciado para estudar por conta de uma dificuldade de concentração. As exceções para recorrer a aulas extras, atestam os educadores, seriam os casos em que se diagnosticam problemas neurológicos ou físicos que exijam atenção especial, ou situações muito específicas. Por exemplo, alguém que chega de outro país, fala outra língua, e precisa acelerar o aprendizado para se integrar à escola.

O pesquisador francês Bernard Charlot identificou quatro tipo de relações que as crianças estabelecem com o saber. A superíntima, em que o saber está associado ao seu modo de estar no mundo; a daqueles que gostam de saber, mas têm de fazer algum esforço para isso; a dos que querem estudar para vencer na vida e não se relacionam com o saber – 75% a 80% do total –; e a daqueles que, estando na escola, não sabem o que estão fazendo ali, já que se acham muito burros e nunca vão aprender. Essas relações com o saber, para Charlot, estão muito ligadas ao que se costuma considerar sucesso ou fracasso escolar.

O que fazer?

– Acredite na parceria. Pais, professores e coordenação pedagógica devem trabalhar juntos para tentar entender por que o processo de ensino adotado para toda a escola não está funcionando com aquele aluno.

– Verifique se a escola tem recursos didáticos diversificados, se monta grupos de estudo e desenvolve projetos interdisciplinares.

– Fale com a criança ou o jovem sem pressa, pergunte sobre os amigos, suas áreas de interesse, eventuais conflitos, desconfortos, problemas.

– Fortaleça o repertório. Associe conteúdos lúdicos e culturais aos temas que estão sendo estudados: filmes, quadrinhos, vídeos, jogos, visitas a museus, passeios.

– Observe se a turma não tem alunos demais e professores de menos. Recomenda-se até 30 alunos no ensino fundamental. Idealmente, com auxiliares.

– Faça exames periódicos de acuidade visual e auditiva. Dificuldades físicas também atrapalham o aprendizado.

– Organize um espaço claro e limpo em casa para os estudos, munido dos materiais necessários. A criança também deve ter uma rotina diária.

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 01/05/2013, em Sociologia da Educação. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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