Os livros didáticos de Sociologia


Anita Handfas

Dentre as diferentes formas de divulgação do conhecimento científico, o livro didático é, sem dúvida, um dos veículos mais importantes quando se trata de pensar a sua presença na escola. Também chamado de “cartilha”, “manual didático”, ou “livro didático”, tal como o conhecemos na atualidade, sua história se confunde com a própria história da educação, pois suas páginas expressam ideias, valores e práticas pedagógicas difundidas em diferentes contextos educativos.Reconhecendo seu potencial de divulgação científica, pesquisadores de diversas áreas de conhecimento têm investigado o livro didático em suas múltiplas dimensões. Historiadores da educação consideram que seu estudo possibilita a compreensão das mudanças nas práticas escolares e na própria instituição escolar, na medida em que ele pode revelar uma história das práticas educativas. Cientistas sociais têm no livro didático uma fonte de pesquisa que permite traçar uma história das ideias e elucidar projetos de nação veiculados por meio de textos e imagens. Na pesquisa educacional, encontramos estudos que buscam analisar o livro didático do ponto de vista do currículo, identificando as tensões e disputas em torno da seleção dos conteúdos a serem ensinados.

Além disso, estudos sobre o currículo podem contribuir também para o entendimento das formas de mediação do conhecimento científico para o conhecimento escolar, considerando que cada uma dessas dimensões possui configurações próprias. Nessa mediação, é importante destacar o papel do professor e do aluno, a quem o livro didático pode servir como um artefato cultural importante no processo de ensino e aprendizagem. Do ponto de vista das políticas públicas, várias pesquisas têm investigado os impactos dos programas de distribuição do livro didático, em particular, o Programa Nacional do Livro Didático – PNLD, que foi criado em 1985 no Brasil. De lá para cá, tem se expandido de forma considerável, chegando hoje à distribuição de livros didáticos de todas as disciplinas aos estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio nas escolas de 99% dos municípios brasileiros que já aderiram ao programa. Só para se ter uma ideia da magnitude do PNLD, levando-se em conta apenas o Ensino Médio, estamos falando de um investimento da ordem de R$ 364.162.178,57, da distribuição de 40.884.935 livros, atendendo a um universo de 8.780.436 alunos, segundo dados de 2013.

Todas as possibilidades de pesquisas mencionadas aqui nos dão a exata dimensão do alcance do livro didático, permitindo afirmar que se trata de um veículo primordial de divulgação científica. Percebemos também como o livro didático está envolto a uma gama de sujeitos e relações presentes no processo de elaboração, seleção e divulgação do conhecimento escolar. Autores de livros, editoras, Ministério da Educação, Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, universidades, avaliadores, escolas, professores e alunos são alguns desses sujeitos envolvidos nesse longo e complexo processo que culmina com a chegada do livro didático nas mãos do professor e do aluno em sala de aula.

Agora que já entendemos um pouco mais sobre a presença do livro didático no Brasil, vamos tomar o caso do livro didático de sociologia para acompanharmos como todo esse processo ocorre no contexto escolar.

O livro didático de sociologia tem uma história antiga. Registram-se os anos de 1930 a 1945 como o período de surgimento de uma produção mais significativa de manuais didáticos da disciplina. Como naquela época ainda não havia cursos superiores de ciências sociais no Brasil, os manuais eram escritos por intelectuais, cuja formação acadêmica era em direito, filosofia, economia, entre outras. Assim, quando pensamos na história do livro didático de sociologia, é interessante notar que a presença da disciplina nos meios escolares precedeu o seu ensino nos cursos superiores, já que só a partir de 1933 são criados os cursos de graduação em ciências sociais em instituições superiores de ensino.

O período que se segue, que compreende os anos de 1940 a 1980, foi marcado pela ausência da disciplina nos currículos escolares, fato que impactou a produção de livros didáticos. Devemos lembrar também que, nesse longo período, o país atravessou contextos políticos mais ou menos democráticos, sofrendo contínuas mudanças nas políticas educacionais. Assim, o período que se inicia na década de 1980, marcado pelo fim do regime militar e pela redemocratização do país, assistiu a um renascimento dos movimentos sociais que lutaram pela democratização do ensino e pela instauração de uma nova dinâmica escolar que fez ressurgir as concepções críticas sobre o currículo, sobre a gestão escolar e sobre o papel do professor no processo de ensino e aprendizagem.

Esse contexto foi particularmente importante para aqueles que lutaram pelo retorno da sociologia no então ensino de segundo grau, pois foi exatamente a partir daí que a disciplina foi sendo reintroduzida de forma gradual em alguns estados. Esse novo quadro de presença da disciplina nos currículos escolares propiciou uma retomada da produção de livros didáticos de sociologia, que foram amplamente apropriados por professores em sala de aula, neste caso, por livre escolha do professor, já que somente em 2012 a Sociologia passou a integrar definitivamente o rol de disciplinas do Programa Nacional do Livro Didático.

A escolha e distribuição do livro didático passam por várias etapas até chegar às mãos do professor e do aluno. Alguns princípios são levados em consideração no processo de avaliação dos livros. Em primeiro lugar, é preciso assegurar que os livros sejam elaborados de modo a garantir a presença das três áreas que compõe as ciências sociais – antropologia, ciência política e sociologia. Nesse sentido, é muito importante também assegurar que as ciências sociais se apresentem como um campo científico rigoroso, composto por estudos clássicos e recentes e por diferenças teóricas, metodológicas e temáticas. Mas talvez o princípio mais valioso, pois diz respeito à própria natureza do livro didático, é a garantia de uma mediação didática que permita que o aluno desenvolva uma perspectiva analítica do mundo em que vive. Da mesma forma, é muito importante que o livro constitua-se numa ferramenta de auxílio ao trabalho docente, respeitando a sua autonomia e levando em conta as especificidades de sua prática pedagógica.

Trata-se, portanto, de uma operação complexa, pois como instrumento de difusão do conhecimento sociológico, o livro didático deve ser capaz de apresentar em suas páginas o arcabouço teórico e conceitual que compõe as ciências sociais por meio de uma síntese didática que torne o seu conteúdo compreensível para estudantes do ensino médio, provocando aquilo que as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino de Sociologia chamam de “estranhamento” e “desnaturalização” dos fenômenos sociais.

Para que possamos perceber com mais clareza como se realiza essa síntese didática, vamos tomar como exemplos os dois livros que foram selecionados no PNLD-2012 e que foram distribuídos em todas as escolas públicas de ensino médio do Brasil. Os livros são: Sociologia para o Ensino Médio, de Nelson Dacio Tomazi e Tempos Modernos, Tempos de Sociologia, de Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros.

Um dos temas clássicos da sociologia do trabalho consiste na análise e compreensão de seus diferentes significados e formas de organização ao longo do tempo. Vejamos então a explicação apresentada por Nelson Tomazi na Unidade “Trabalho e Sociedade”. Nas páginas do livro encontramos:

“Em nossa sociedade, a produção de cada objeto envolve uma complexa rede de trabalho e de trabalhadores. Vamos tomar como exemplo um produto que faz parte do dia a dia de grande número de pessoas: o pãozinho de água e sal.” (p. 37)

Aqui é possível identificar um recurso muito utilizado em sínteses didáticas, o recurso à analogia que, nesse caso, deu-se pela tentativa de transportar o aluno para uma situação familiar, a padaria, ou o pãozinho nosso de cada dia. Mais adiante, nesse mesmo trecho do livro, depois de explicitar o longo processo de fabricação do pão, o autor prossegue em sua explicação sobre o trabalho:

“Se para comer um simples pão há tanta gente envolvida, direta e indiretamente, você pode imaginar quanto trabalho é necessário para a fabricação do ônibus, da bicicleta ou do automóvel, para a construção da casa em que você vive ou da escola onde estuda.” (p. 37)

Essa foi a forma encontrada pelo autor para introduzir o tema “Trabalho”, aproximando-o da vivência do aluno, ao mesmo tempo em que busca aguçar a curiosidade a respeito da temática, mostrando que, do ponto de vista sociológico, o tema ganha novos contornos, ultrapassando o entendimento reducionista que relaciona a temática ao “mercado de trabalho”.

Outro recurso muito utilizado em livros didáticos são as imagens. Para além de meras ilustrações, as imagens desempenham um papel importante na síntese didática dos livros, seja para representar os temas tratados, ou como suportes de atividades didáticas propostas aos alunos.

Vamos a um exemplo de uso de imagem no livro de Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros. Na unidade intitulada “Interpretando o Brasil”, as autoras propõem a seguinte atividade didática:


Tempos Modernos, Tempos de Sociologia, p. 256.
Vemos então, que a imagem aparece no livro como uma ferramenta que provoca a reflexão do aluno para a temática abordada, interferindo de forma positiva na resolução da atividade didática proposta.Além desses, encontramos uma série de outros recursos, tais como charges, músicas e poemas que atuam de forma interessante no processo de ensino e aprendizagem, na medida em que realizam a mediação entre o plano teórico das ciências sociais e o mundo social do aluno.

Iniciei esse artigo remetendo o leitor a uma breve história do livro didático no Brasil. Concluo salientando que o livro didático só poderá desempenhar todo o seu potencial de divulgação científica na escola, se professor e aluno puderem ter em suas mãos um recurso pleno de possibilidades didáticas e pedagógicas. Para o professor, o livro didático deve se constituir em aliado no seu trabalho pedagógico e, para o aluno, uma referência importante de acesso aos conhecimentos e saberes que circulam na escola.

É o que se espera do livro didático de sociologia.

Anita Handfas é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do Laboratório de Ensino de Sociologia Florestan Fernandes – LabES (www.labes.fe.ufrj.br)

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 18/08/2013, em Livros Didáticos, Sociologia no Ensino Fundamental, Sociologia no Ensino Médio. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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