Uma boa mistura entre literatura e sociologia


Por Thaís Tibiriçá – tibirica@fazendomedia.com

Um estudo realizado pelo sociólogo Rodrigo Estramanho de Almeida, pesquisador do Grupo de Estudos sobre o Brasil Moderno da Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo (FESPSP) mostra como a Literatura traz informações riquíssimas sobre a desigualdade social brasileira. A principal obra analisada pelo professor foi O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, do qual transbordam críticas e descrições perfeitas da situação da sociedade brasileira na época.

Nesta entrevista concedida ao fazendomedia.com, Rodrigo Estramanho fala da importância do resgate histórico da literatura, analisa obras clássicas e comenta o que está sendo produzido atualmente nessa área.

Como surgiu a idéia do estudo “A obra do tempo e o tempo da obra: sociologia de um romance e pensamento social brasileiro em ‘O Cortiço’ de Aluísio Azevedo”?
A idéia é antiga: o livro “O Cortiço” de Aluísio Azevedo me impressionou muito, ainda na adolescência, durante o colégio. Mais tarde, na faculdade, por meio do Grupo de Estudos de Brasil Moderno, tive a oportunidade de estudar a relação entre Literatura e Sociedade e aí o romance naturalista de Aluísio Azevedo caiu como uma luva, pois é completamente impregnado de uma fugaz crítica social. Nada mais interessante para um sociólogo.

Por que utilizar a Literatura como forma de demonstrar a desigualdade social brasileira? 
A Literatura como recurso de estudo da sociedade e suas problemáticas não é uma novidade. Há diversos pensadores sociais e críticos literários que trabalharam e trabalham nesta seara. No Brasil temos os importantes estudos do professor Antonio Candido, por exemplo, e de precursores da sociologia como Silvio Romero, entre outros. Neste sentido, estou me apoiando em um arcabouço analítico e teórico consistente que permite uma abordagem bastante segura da realidade brasileira e de seus problemas. Sendo a sociedade brasileira desigual desde os primórdios, inevitavelmente a literatura acaba por refletir estas desigualdades em seus enredos e personagens.

Quais descobertas no estudo você considera mais relevantes?
Acho que um aspecto importante é revelar, por meio de indícios recolhidos em “O Cortiço” e na biografia do autor, dados interessantes sobre a modernidade que chegava ao Rio de Janeiro em fins do século XIX. Os dez últimos anos do século XIX são substanciais para entender o desenvolvimento das metrópoles brasileiras: em 1888 foi promulgada a abolição da escravatura, homens pobres livres de todos os cantos do Brasil e de algumas regiões da Europa chegavam à capital fluminense em busca de trabalho e oportunidades. O problema é que não houve planejamento para receber estes contingentes e logo afloraram as desigualdades. Foram estes contingentes que habitaram as estalagens, casas de cômodos e cortiços que, mais tarde, fugindo da reforma urbana, iriam povoar os morros do Rio.

Você ressalta que Aluísio foi um grande crítico da sociedade brasileira. Que outros autores teriam este perfil?
São muitos os autores que produziram obras de caráter crítico, às vezes de forma implícita, outras vezes de forma mais explícita, e, cometendo injustiça com os muitos que não citarei, aponto: Machado de Assis, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Graça Aranha, Mário de Andrade, entre outros. Mas, de qualquer forma, a sociedade está dentro até de romances que não têm intenção crítica. De uma forma ou de outra o autor acaba por deixar indícios do tempo em que escreve nos textos que escreve.

E na literatura atual brasileira, você acha que os escritores estão tendo esta preocupação de crítica?
Existem bons livros na atualidade com preocupação crítica, mas são poucos. Não é novidade que muitos dos campeões de venda da atualidade têm pouco a dizer sobre a realidade social. Para não cometer injustiças não vou citar autores e obras, mas creio que o que há de mais substancial está em clássicos do passado.

O grupo de estudos sobre o Brasil Moderno da FESPSP, do qual você participa, tem tido sucesso em seus projetos? E qual o impacto para a sociedade?
O coordenador atual é o professor Rogério Baptistine Mendes, que é especialista em Pensamento Político e Social e Sociologia brasileira. De qualquer modo posso dizer que o grupo congrega dezenas de estudantes de ciências sociais em seminários e pesquisas que abordam temas sobre a formação, a história e o desenvolvimento da sociedade brasileira. Acredito que muitos dos dados levantados e muitas das abordagens realizadas podem, se sistematizados, sugerir bons caminhos de atuação para a formulação de políticas públicas. Por outro lado, o grupo também tem desenvolvido um bom trabalho de resgate do pensamento social brasileiro a partir de importantes intelectuais e obras.

O senhor acha que a sociologia e a própria academia poderiam utilizar mais a literatura após década de 30?
Há muitos trabalhos neste sentido, mas nunca é demais. As décadas de 40, 50 e 60 foram muito produtivas em literatura e mesmo depois, entre os anos 70 e 80, há boas discussões a fazer sobre literatura durante o regime militar. Mas, o importante é frisar que a análise sociológica da literatura é antes de tudo uma reflexão sobre as tensões entre arte e ciência, expressão e pensamento. Assim, seja lá qual for a época e o romance que se vai abordar, certamente o movimento da análise prevê reflexão e levantamento histórico.

Você é apaixonado pela literatura brasileira? Qual época o mais encanta? Por quê?
Sou apaixonado por literatura em geral, sobretudo a brasileira e o modernismo me encanta muito por sua capacidade de unir o cosmopolita ao local de forma rica e única. Acho que é o movimento literário que melhor realizou uma síntese do Brasil.

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 02/09/2013, em Diálogos com os Sociólogos, Sociologia da Literatura. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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