Colaboração total


Proposta de inclusão escolar praticada em colégio do Rio de Janeiro une professores e pedagogos em sala de aula para ensinar alunos com necessidades educacionais especiais.

Por: Isadora Vilardo

Colaboração totalPara promover o aprendizado de alunos com deficiência intelectual na escola regular, pedagoga sugere a união entre professores do núcleo comum e profissionais especializados. (foto: Patrícia Braun)

Educar é uma tarefa complexa e a diversidade é um agente problematizador, embora fundamental. Durante muito tempo, enquanto a presença de alunos com necessidades educacionais especiais dentro da escola regular era um quadro raro, a importância de conviver com a diversidade foi ignorada. Hoje, contudo, a realidade impõe a regra oposta e surge a pergunta: como lidar com essa questão, tão latente na sociedade contemporânea, e promover inclusão social e escolar?

A pedagoga Patrícia Braun, professora do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira – CAp, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), coordena ações que buscam responder a essa inquietação. Trata-se de uma proposta baseada na ideia do ensino colaborativo, cuja finalidade é unir em sala de aula a ação docente especializada de pedagogos ao trabalho dos professores do núcleo comum.

Já são mais de 600 mil alunos com necessidades educacionais especiais em escolas regulares, segundo censo do Inep

Atualmente, a legislação brasileira determina que o atendimento educacional especializado seja oferecido a todo aluno com necessidades educacionais especiais por meio de atividades complementares, oferecidas em uma sala com recursos multifuncionais por um pedagogo, após o turno regular do aluno. A medida é um grande passo para esses alunos, que, segundo o censo escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) de 2012, dobraram em número na escola regular desde 2007 e já somam mais de 600 mil.

Para Braun, entretanto, o direito garantido em lei não é suficiente. “Um menino com deficiência intelectual ou autismo muitas vezes não consegue organizar e usar sozinho no contexto da sala de aula as estratégias que aprendeu na sala de recurso. Ou seja, há uma necessidade de mediações que o auxiliem na generalização dos procedimentos de ensino e de aprendizagem”, explica. “Além disso, é importante que o pedagogo esteja em sala durante as aulas convencionais para perceber como é a interação do aluno com a turma, as atividades e os conteúdos desenvolvidos e pensar estratégias de ensino.”

Para isso, em seu projeto desenvolvido no Instituto de Aplicação, os pedagogos atuam em sala de aula como um segundo professor – de modo similar ao que ocorre na bidocência, já praticada em algumas escolas do país.

Sala de aula
O projeto prevê a atuação colaborativa de dois profissionais em sala de aula, de modo semelhante à bidocência que já ocorre em algumas escolas do país. (foto: Patrícia Braun)

“Não se trata do pedagogo como um auxiliar do professor regente, mas de uma atuação colaborativa”, explica Braun. “Muitas vezes a tarefa consiste, por exemplo, em ler junto com o aluno, apontar, repetir o que a professora disse de forma mais pausada ou com linguagem mais direta.” E continua: “Mas outras vezes o pedagogo vai estar à frente da turma, coordenando e organizando atividades, enquanto o professor ‘regente’ vai estar com o aluno fazendo a mediação individualizada.”

A interação entre professores do núcleo comum e aqueles que atuam na equipe do ensino colaborativo não exclui uma atenção mais direcionada aos alunos com necessidades especiais, como prevê a legislação nacional. Braun esclarece que essa individualização ocorre de forma complementar, fora do tempo de aula regular, na sala com recursos multifuncionais, onde são desenvolvidas com o aluno atividades diferenciadas de ensino, adequadas às demandas que surgem para seu desenvolvimento.

A interação entre professores do núcleo comum e aqueles que atuam na equipe do ensino colaborativo não exclui uma atenção mais direcionada aos alunos com necessidades especiais

“Algumas vezes é preciso fazer uma individualização do ensino tão significativa para aquele aluno que, se for feita em sala de aula, ele fica discriminado”, diz Braun. “A diferenciação do ensino não pode discriminar, pois o objetivo é tornar o processo de ensino o mais equânime possível, por isso há a necessidade de um espaço e tempo complementares.”

Nesse processo, Braun ressalta a necessidade da aproximação entre pedagogos e professores. “A educação, para ser inclusiva, não pode ficar nas mãos de um único especialista”, afirma. “O pedagogo conhece as questões que abarcam o desenvolvimento, mas os conceitos de física, química, por exemplo, ele não sabe. Por isso é papel dele colaborar com os professores do núcleo comum na elaboração de ações pedagógicas para ensinar o conteúdo necessário.”

Inclusão e aprendizado

Para que projetos como esse funcionem, Braun acredita ser indispensável que a escola se adapte e reformule estruturas em função dos alunos com necessidades. Não raramente, alunos com necessidades educacionais especiais precisam de mais de um ano para concluir o ano letivo, por exemplo, ou necessitam de recursos didáticos especiais, para além dos livros e exercícios que a escola está habituada a utilizar.

Sala de aula 2
A interação de professores do núcleo comum e pedagogos em sala de aula facilita a individualização do ensino, embora as aulas complementares para alunos com necessidades especiais previstas na legislação sejam indispensáveis. (foto: Patrícia Braun)

“O processo de inclusão não é fácil”, pondera Braun. “Como a escola se organiza pela produção do conhecimento, quando ela se depara com um aluno que apresenta condições diferentes das usuais para aprender, toda a estrutura é quebrada e ela tem de ser totalmente repensada.”

Por isso, a pedagoga chama a atenção para a necessidade de encarar o currículo escolar de outra forma, menos monolítica. “Abandonamos a ideia de gavetinhas de conhecimento, como matemática, ciências e linguagem, isoladas umas das outras”, aponta. “A educação deve ser compreendida como a engrenagem necessária para a construção do indivíduo.”

Para fazer a diferença

Para avançar efetivamente na questão da inclusão escolar, Braun acredita que ainda há muito que ser feito, principalmente em relação a políticas públicas e recursos financeiros que possibilitem a adoção de métodos como esse em outras escolas.

Ainda há muito que ser feito, principalmente em relação a políticas públicas e recursos financeiros que possibilitem a adoção de métodos como esse

“Não é um pedagogo com uma sala de recursos que vai dar conta da demanda de toda uma escola”, diz. “Nossa equipe atualmente tem cinco profissionais; atuamos com os casos mais relevantes, mas há muitos outros casos que mereceriam atenção no Instituto, que tem mais de 1.100 alunos.”

Embora o projeto de ensino colaborativo seja apenas uma das estratégias para a inclusão escolar, Braun reforça a sua importância. “Alguns pais e professores ainda se perguntam se estão no melhor caminho, mas eu penso que, para as coisas acontecerem, é preciso vivenciá-las”, diz a pedagoga. E conclui: “Famílias, professores e alunos estão abrindo caminhos para aqueles que virão. Ainda não é fácil, mas acho que já foi mais difícil.”

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 28/01/2014, em Sociologia da Educação. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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