Mudanças nas línguas


Mudanças nas línguas

É possível prever esses fenômenos? Ao discutir a questão, o linguista Sírio Possenti enfatiza dois aspectos: a origem da mudança é quase sempre popular; a nova forma passa a ser progressivamente empregada por gente mais culta.

Por: Sírio Possenti

Mudanças nas línguas

Na pintura de Aurélio Figueiredo, Caminha lê a carta a D. Manuel. O documento contém construções que, por razões sociais ou cognitivas, deixaram de ser usadas e sequer são lembradas. (imagens: Wikimedia Commons – CC BY SA 3.0)

Na coluna passada, falei do mito da língua perfeita e do fato de que as mudanças são, em geral, tratadas como decadência. É interessante detalhar um pouco essa avaliação, para ser mais justo.

De fato, a mudança tratada como decadência é a mudança da qual se tem memória, ligada à variação, ou, dito de outra forma, relativa a construções que parecem desvios ou erros. Por exemplo, “se eu propor / fazer”, em vez de “propuser / fizer”.

Mas ninguém se lembra de mudanças que ocorreram há mais tempo. Por exemplo, na Carta de Caminha está escrito que “neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra”. Hoje, não nos baseamos mais na divisão do tempo determinada por práticas religiosas (Matinas, Laudes, Vésperas etc.), o que implica mudança de valores sociais, nem empregamos construções sintáticas como “houvemos vista de terra” (diríamos “avistamos / vimos terra”).

As mudanças que afetaram o verbo ‘haver’ são excelente exemplo

As mudanças que afetaram o verbo “haver” são, aliás, excelente exemplo. Como a escola confere grande valor ao uso existencial de “haver” (havia muitas pessoas), suas regras de concordância tornaram-se um lugar de avaliação do saber escolar: o verbo deve ser usado (condena-se “ter” nessa função) e não deve ser flexionado.

No entanto, é cada vez menos usado, sendo substituído pelo verbo “ter” (tinha muita gente nos rolês), que, curiosamente, é alvo das mesmas dúvidas em sua flexão (tinha / tinham muitas pessoas). O que se esquece (e ninguém reclama) é que o verbo “haver” já teve o sentido de ‘possuir’, como em “Este Rey Lear nom ouue filho, mas ouue três filhas” (Este rei Lear não houve [teve] filho, mas houve [teve] três filhas).

Na verdade, o próprio verbo “ter” está deixando de ser empregado na acepção ‘ser possuidor’, sendo progressivamente substituído nesse sentido pelo verbo “possuir” (“o livro possui cinco capítulos / a mãe possuía dois filhos”). Quase ninguém mais percebe esse fato, o que significa que a mudança já ocorreu. E ninguém reclama dela. Nas listas de erros, esse não aparece.

Em suma: há mudanças. De algumas se reclama, porque estão à vista (ouve-se muito que “doem nos ouvidos”). De outras, não se reclama porque estão distantes, ora mais, ora menos. Ou seja: quem reclama de mudanças reclama numa língua que já mudou, só que ele/ela não sabe.

Influência de fatores sociais e cognitivos

A questão que propus é se uma mudança pode ser prevista. Recentemente, ganhou notoriedade um programa de busca proposto pelos pesquisadores Erez Aiden e Jean-Baptiste Michel no livro Uncharted: big data as a lens on human culture (algo como ‘O inexplorado: grande quantidade de dados como lente para exame da cultura humana’). O sistema pode vasculhar documentos aos milhões e fazer algumas descobertas.

Uma que mereceu destaque nas resenhas diz respeito aos verbos irregulares do inglês. Pesquisadores contratados para a tarefa encontraram 177 verbos irregulares no chamado Old English, número que baixou para 145 no Middle English – a língua do escritor e filósofo inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400) – e para 98 no inglês moderno. O que significa que, dentro de décadas (ou séculos), os verbos irregulares do inglês podem desaparecer.

Mas nada é assim tão simples. A pesquisa revelou também que, dentre os verbos irregulares do Old English, os 12 mais frequentemente usados permaneceram irregulares, enquanto que 11 dos 12 menos frequentemente usados sofreram a mudança. O resultado mostra que há fatores envolvidos na manutenção ou abandono de certas formas. Fatores sociais e cognitivos estão entre os mais relevantes.

Um exemplo de fator social? Numa das resenhas surge um fato até curioso e de interpretação mais ou menos óbvia (não fica claro se está em Uncharted ou se é uma observação do resenhista Haywata Bray, do jornal The Boston Globe, pois o programa,Egram, pode ser acionado por qualquer um; um amigo o testou para verificar o volume de citações de determinados intelectuais modernos).

Segundo se pode ler na resenha, a construção “The Unites States are” era mais frequente quando a Federação era “pensada” como uma coleção de estados. Já a construção “The United States is” passou a ser mais comum após a vitória da União na Guerra da Secessão. Trata-se de um fato histórico com uma banda cognitiva, como se pode ver.

Os autores acham que descobriram que um processo como a evolução, no sentido darwiniano, pode ser confirmado nos campos histórico e cultural. Digamos que isso é bem velho. Fiquemos com o sistema de busca, que também se presta a brincadeiras. Por exemplo, Bill Clinton é mencionado tantas vezes quanto lettuce, duas vezes mais do que cucumber e mais ou menos a metade de tomato

Duas coisas importantes

Se não se pode prever o que vai mudar, no caso das línguas, talvez se possa ter alguma segurança sobre o que não vai mudar. Por exemplo: a queda da vogal final dos verbos latinos, quando aquela língua se tornou português (simplificando muito), pode muito bem ser “prevista” depois, isto é, explicada: a vogal não é portadora de sentido, um dos critérios para haver mudança.

Atualmente, sabemos que o “r” final também caiu na prática, no uso, embora se escreva (não muitas vezes nas mensagens no “Face”): de fato, dizemos amábenzêdivertí. Explica-se, em parte: o “r” também não é portador de sentido; o que distingue amá de ama e benzê de benze é a sílaba acentuada (já divertí infinitivo não se distingue dediverti passado, exceto pelo contexto ou pela construção sintática).

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Não há decadência de línguas; há apenas mudança. Talvez do tipo darwiniano, que, então, poderíamos chamar de ‘evolução’, sem a conotação de ‘progresso’. (montagem: Sofia Moutinho; imagem: Sxc.hu)

Em toda essa questão da mudança, duas coisas são importantes:

A) a origem da mudança é, em geral, popular;
B) mais ou menos inconscientemente, ajudada por fatores internos à língua (como a posição e a função – ou a falta de função – do final dos verbos latinos), a forma nova, eventualmente dita errada, passa a ser progressivamente empregada por pessoas mais cultas.

Muitas vezes, antes pelos jovens, depois pelos mais velhos (eventualmente os antigos jovens). Com o tempo, ninguém mais lembra as formas antigas, exceto se for aos livros daquele tempo ou se ler escritores/jornalistas etc. mais antigos ou mais conservadores.

Ou seja: não há mesmo decadência. Há apenas mudança. Talvez do tipo darwiniano, que, então, poderíamos chamar de “evolução”, sem a conotação de ‘progresso’.

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Publicado em 28/01/2014, em Antropologia e Linguística. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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